Língua Guarani Mbya reconhecida como referência cultural brasileira

Rafael Nakamura, CTI

Recentemente o Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio do Inventário Nacional de Diversidade Linguística (INDL) reconheceu a língua Guarani Mbya como referência cultural brasileira. A aprovação ocorreu em reunião realizada no início de setembro na sede do IPHAN. Junto com o Guarani Mbya foi reconhecida a língua Assurini do Trocará, ambas línguas indígenas do tronco Tupi, família Tupi-Guarani. Além destas, o INDL também reconheceu como referência cultural o Talian, língua falada pelos descendentes de imigrantes italianos no Brasil.

O reconhecimento das três línguas como referência cultural brasileira foi feito a partir de projetos piloto, baseados em pesquisas que levavam em conta o tamanho da população que utiliza a língua, o grau de apropriação e a plenitude de falantes, entre outras questões. “Estas foram as primeiras experiências com reconhecimento cultural linguístico, feitas a partir de projetos piloto. Foram oito projetos, dos quais três instaurou-se processos para inclusão das línguas no INDL”, explica Marcus Vinicius Carvalho Garcia, servidor do IPHAN.

O projeto piloto relativo ao Guarani Mbya foi elaborado pelo Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL) de Santa Catarina. A pesquisa do IPOL seguiu a metodologia proposta pelo INDL em suas recomendações de como inventariar a língua e foi desenvolvida conjuntamente com os Guarani, a partir do contato com as lideranças das comunidades já identificadas (acesse aqui o Inventário da Língua Guarani Mbya). “No total conseguimos visitar 69 comunidades, desde o Espírito Santo até o Rio Grande do Sul, e realizar entrevistas para saber como os falantes definem a própria língua, como ocorre a transmissão através de gerações, os lugares onde a língua circula, além de toda uma pesquisa histórica das comunidades”, conta Rosângela Morello, quem coordenou a pesquisa do IPOL.

Ao fim da pesquisa um livro e um DVD, resultantes do projeto, foram apresentados em um encontro em Santa Catarina que reuniu indígenas guarani de diversos estados. Os guarani aprovaram os resultados e produziram uma carta na ocasião, reforçando seu desejo de reconhecimento da língua Mbya como referência cultural brasileira (veja o Documento Final do Encontro). Para Daniel Pierri, antropólogo do Centro de Trabalho Indigenista, “o reconhecimento da língua Mbya enquanto referência cultural brasileira é importante para afastar os estigmas comumente associados ao povo guarani por seus detratores, que tratam os índios como estrangeiros em sua própria terra”.

A ideia de valorizar as línguas tradicionais faladas por povos que compõem a diversidade cultural brasileira surgiu de um grande encontro em 2006, promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, onde se debateu a diversidade linguística enquanto patrimônio cultural. Neste encontro foi criado o Grupo de Trabalho Diversidade Linguística, formado por representantes da sociedade civil, do Estado e pesquisadores da área. “Coube ao GT Diversidade Linguística conceber e propor as diretrizes que fundamentaram a criação do INDL, que foi instituído pelo Decreto 7387 de 2010”, conta Marcus Vinicius Garcia.

Entre os dias 17 e 20 de novembro próximo deverá ocorrer o Seminário Ibero-Americano de Diversidade Linguística, onde as três línguas já reconhecidas serão certificadas oficialmente em cerimônia conduzida pela Ministra da Cultura Marta Suplicy.

Patrimônio Cultural Guarani

Em parceria com o Centro de Trabalho indigenista e com a Comissão Guarani Yvyrupa, o IPHAN promove também o projeto “Pesquisadores Guarani no processo de Transmissão de Saberes e Preservação do Patrimônio Cultural Guarani” através do qual jovens guarani de diversas aldeias são formados para atuar em pesquisas que colaborem com o fortalecimento e valorização da cultura de seu povo. O projeto já foi desenvolvido nas aldeias do estado de São Paulo e resultou no material, disponível como filme e livro, “A força do Xondaro”, que mostra a importância da dança de guerra para os guarani.

O trabalho se desenvolve agora entre aldeias dos estados de Santa Catarina e do Paraná. Para desenvolver o projeto foram escolhidos 12 jovens pesquisadores que irão tratar o tema da “Mobilidade Guarani”. A escolha dos pesquisadores foi feita pelos guarani em reunião realizada na Aldeia Marangatu, no município de Imaruí (SC). Junto com o coordenador guarani, também escolhido em reunião, e uma equipe não-indígena de formação estes jovens serão responsáveis pela elaboração dos materiais de valorização de sua cultura, tendo como fonte a sabedoria dos parentes mais velhos que habitam em cada aldeia.