O povo guarani mbya foi um dos cinco que estão envolvidos na iniciativa. (Foto: Maria Carolina Botinhon)

Entre o papel e o corpo

Gravador, papel, caneta, celular e computador são objetos cotidianos em práticas de pesquisa e entrevista na sociedade não indígena. Mas apesar de termos nos convencido de que as formas de produzir conhecimento exigem suportes técnicos como esses, os povos indígenas mostram que outros modos de conhecer também são possíveis. Neles, a técnica pode ser a da escuta cuidadosa, do fazer coletivo, do olhar afiado e do corpo atento. Formas de conhecer que não são apenas representações culturais, mas outro idioma de fazer ciência – e um idioma que está mais perto de nós do que imaginamos.

Somente no estado de São Paulo, vivem pelo menos cinco povos dentro de Terras Indígenas: os Guarani, os Tupi, os Krenak, os Kaingang e os Terena. Mobilizados para construir um modelo específico de formação no Ensino Superior que os represente, cerca de 20 professores e lideranças destes povos, com apoio do Comitê Interaldeias e do Fórum de Professores Indígenas do Estado de São Paulo (Fapisp), se reuniram para mais um encontro do grupo de trabalho “Por uma licenciatura indígena no Estado de São Paulo”, acolhido pela Universidade de Federal de São Paulo (Unifesp) na forma de curso de extensão.

O ciclo de discussões que terminou na última sexta (23) é o segundo entre os cinco previstos para acontecer até setembro de 2019. Dando continuidade às reflexões do módulo anterior, realizado entre os dias 6 e 10 de agosto deste ano, o objetivo central do encontro passado foi concluir a semana construindo parcerias com outras universidades que possam integrar uma rede de apoio para viabilizar a licenciatura indígena no estado.

Saulo Ramires, guarani mbya, destacou: “Nosso conhecimento é nosso ouro. Para o jurua [não indígena], tudo é dinheiro. Para nós, tudo é nhandereko [o modo de ser guarani]. (…) O nosso poder é a palavra e também a terra. Por isso, estamos aqui pleiteando uma formação específica para nós, para poder levar nossos conhecimentos e trabalhar junto com a universidade”.

A pró-reitora de Extensão e Cultura da Unifesp, Raiane Assumpção, ressaltou que a federal de São Paulo tem em suas diretrizes o fortalecimento de práticas interculturais e o compromisso com políticas públicas. “Nesse espaço, estamos afirmando o nosso posicionamento institucional para construção dessa parceria”, declarou Assumpção.

Além da Unifesp, a universidades federais do ABC (UFABC) e de São Carlos (UFScar) e as universidades estaduais de Campinas (Unicamp), de São Paulo (USP) e Paulista (Unesp) também evidenciaram o interesse em apoiar a iniciativa. “Aqui é um voto de força de que estamos juntos. Há uma prioridade: que essa seja a pauta de todas essas universidades”, manifestou Marta Amoroso, do Departamento de Antropologia da USP.

A licenciatura será voltada para professores que atuam em escolas dentro das aldeias e está sendo construída a partir das dinâmicas territoriais e de organização social de cada povo, respeitando suas especificidades e considerando a construção de conhecimentos para além do paradigma científico.

Para a antropóloga guarani nhandeva Sandra Benites, o conhecimento não está apenas na escrita. Mas no corpo: “Parece que o conhecimento dos jurua que está na escola e na universidade está fora do corpo, está longe. Para nós, os conhecimentos estão no corpo e nós vamos juntos com os nossos conhecimentos, com as nossas experiências. A gente repassa os conhecimentos a partir da nossa experiência”.

A representante guarani mbya Cristine Takuá refletiu sobre como a razão eurocêntrica, ao longo da história, se sobrepôs aos saberes dos povos tradicionais: “Negam nossa ciência, nossa epistemologia, nossa lógica, nossa arte, todos os nossos processos de transmissão de saberes. Mas os conhecimentos indígenas são muito vivos, baseados na transmissão oral que a gente observa nos cantos, nas línguas faladas até hoje, e em todo um processo muito complexo de existência, desde as práticas de curar, de educar e de respeitar todos os seres, humanos ou não”.

Durante o processo de construção da licenciatura, há uma preocupação permanente de não reduzir a multiplicidade dos conhecimentos indígenas a uma única matriz, em especial à que coloca a ciência numa posição hierarquicamente superior. “A ciência foi tida como o modo mais verdadeiro e sistemático de conhecimento sobre a natureza e o mundo, relegando outros conhecimentos na classificação de ‘crenças’, ‘representações culturais’, ‘folclore’. ‘Nós fazemos ciência. Os outros têm crenças’”, problematizou Valéria Macedo, antropóloga e professora da Unifesp.  A intenção do grupo é, portanto, a de sedimentar terrenos de diálogo e conexão em que tanto os saberes considerado científicos como os tradicionais sejam vistos como modos de conhecer.

De fato, o desafio que se coloca é o de conectar visões de mundo opostas. De um lado, uma visão cientificista, que tem a natureza como objeto e a cultura como sujeito. De outro, uma filosofia do pertencimento, que abarca ambas, e todos os seres que a habitam – humanos ou não, visíveis ou não –, como uma entidade única. “Muitos conhecimentos foram deixados de fora da universidade. Precisamos criar estratégias de como abrir a universidade para que os conhecimentos indígenas sejam respeitados, valorizados e sejam tratados como conhecimento. É preciso formular uma licenciatura que reconheça essas outras metodologias de construção de conhecimento”, pontuou a antropóloga Joana Cabral de Oliveira.

Outra discussão complexa levantada pelos participantes foi sobre as políticas linguísticas necessárias para a formação dos professores indígenas em São Paulo. A antropóloga e linguista Bruna Franchetto propôs que o curso fosse pensado a partir de um multilinguismo entre o português e as línguas indígenas, considerando a escrita como uma convenção que representa a fala e valorizando a tradição oral dos povos originários. “A cultura da oralidade tem que ser cultivada como uma planta. A língua vive na fala. A escrita pode ser útil, através da escola, pode ajudar. Mas não vem em primeiro lugar. Na escola, muitos pensam que é apenas o lugar e tempo da escrita, mas a oralidade também está presente”, incluiu Franchetto.

Bruna Franchetto levanta discussão sobre políticas linguisticas na construção da licenciatura. (Foto: Maria Carolina Botinhon)

Ao fim dos cinco módulos, os professores indígenas terão em mãos um Projeto Político Pedagógico (PPP) que atenda as necessidades dos povos indígenas no estado de São Paulo e supere a condição atual de precarização da educação escolar indígena, em que os professores trabalham sem uma formação diferenciada, como garante a Constituição Federal, e com a ausências de direitos trabalhistas.

Daniel Pierri, antropólogo do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) que assessorou os trabalhos, anunciou: “que cada universidade se sinta parte desse processo. Isso os professores têm debatido, e a conjuntura política está difícil, mas uma vez que estejamos com esse documento construído conjuntamente que este possa ser uma bandeira de luta de todos que estão aqui”.

Por fim, Ana Gomes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destacou a importância do professor indígena não apenas como quem tem compromissos profissionais restritos à escola, mas como alguém comprometido com o fortalecimento dos conhecimentos e da luta pelos direitos de sua comunidade. Saulo Ramires, professor guarani, concluiu em concordância: “esses cursos devem ser uma janela para um espaço sagrado. Imagina se a gente conseguir ter um novo espaço na universidade… Seria uma porta para a multiplicação dos nossos conhecimentos. (…) Vocês falam muito de trabalho de formiguinha. Uma gotinha de água pode transformar o oceano. Uma caverna escura pode ser iluminada por uma fagulha”.

Confira a galeria de imagens do encontro: