Turma do GT “Por uma licenciatura indígena no Estado de São Paulo” (Foto: Felipe Figueiredo)

Indígenas iniciam construção de licenciatura diferenciada em São Paulo

Por Tatiane Klein e Rafael Nakamura

Terminou na última sexta-feira (10), o primeiro encontro do grupo de trabalho “Por uma licenciatura indígena no Estado de São Paulo”, fruto de uma mobilização de professores e lideranças indígenas dos povos Guarani, Tupi, Krenak e Terena.

Acolhido pela Universidade de Federal em São Paulo (Unifesp) na forma de um curso de extensão, o módulo reuniu mais de 20 professores indígenas, com apoio do Comitê Interaldeias e do Fórum de Professores Indígenas do Estado de São Paulo (Fapisp), para iniciar a construção de um modelo específico de formação no Ensino Superior para esses professores.

No primeiro encontro, o modelo do curso foi discutido a partir das experiências de licenciaturas indígenas já desenvolvidas em outras regiões do país. Convidados vindos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) debateram com os participantes os projetos curriculares e político-pedagógicos que os orientam, bem como as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores indígenas.

A semana começou com uma conversa  com José Ribamar Bessa Freire, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO). Apresentando um panorama a partir das diversas formações de professores indígenas que já acompanhou, Freire falou das missões da universidade, mas também da importância dos conhecimentos indígenas para transformá-la.

“O pássaro da cultura e do conhecimento tem duas asas: uma asa é a universidade, a outra é o Sambódromo, a aldeia, a maloca. Muitas vezes a gente fica muito tempo batendo uma asa só”, refletiu, recordando Darcy Ribeiro. Ele também destacou o papel da oralidade nessas formações: “É claro que a escrita é um caminho para o conhecimento, mas não é o único caminho. Uma licenciatura tem que estar muito atenta à questão da oralidade”.

Já Ana Gomes, professora da UFMG, reforçou a necessidade de diálogo com as comunidades e especialistas locais, lembrando que os sujeitos da escola são muitos e múltiplos, especialmente nas escolas e formações indígenas. “O currículo não diz o que vamos fazer; é o mapa que desenha as possibilidades de trabalho. Para é nós fundamental a presença indígena na universidade. Essa presença continuada efetivamente muda a universidade – assim como muda a nossa presença nas aldeias”, explicou.

As formas de envolver os detentores de saberes tradicionais na formação estiveram no centro dos debates do módulo e devem continuar nos próximos encontros. Para Valcenir Tibes, professor guarani que vive na Terra Indígena Tenondé Porã, é preciso que a formação ajude a valorizar esses sábios: “Eles são nossas raízes e muitas vezes se colocam pequenos diante de nós, porque não sabem ler e escrever. Falar bem e escrever bem português, serve para uma coisa; os nossos conhecimentos tradicionais servem para nós. Mais do que professor formado, mais do que professor com doutorado, são os xeramoĩ [anciões] e as xejaryi [anciãs]”, refletiu Tibes.

Perspectivas
Outra preocupação do encontro foi avaliar as experiências de licenciaturas indígenas que não chegaram a se concretizar ou que foram descontinuadas. É o caso da Formação Intercultural Superior de Professores Indígenas do Estado de São Paulo (Fispi) que levou 80 professores à USP entre 2005 e 2008, mas teve uma única edição. Graças à paralisação, hoje mais da metade das vagas existentes nas escolas indígenas do Estado são preenchidas por professores sem formação superior.

Para Daniel Pierri, antropólogo do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) que assessorou os trabalhos, a aproximação com exemplos de outros estados trouxe entusiasmo para a luta pela educação indígena em São Paulo, mas também indignação. “Estamos no Estado mais rico da federação e a efetivação dos direitos indígenas sobre a educação escolar aqui nem sequer engatinha por absoluta falta de vontade política do Palácio dos Bandeirantes e pelo fechamento histórico das Universidades Estaduais paulistas para as demandas da sociedade”, critica.

Coordenadora do grupo de trabalho ao lado da professora Débora Galvani e das representantes guarani Poty Poran Carlos e Cristine Takua, a antropóloga Valéria Macedo, da Unifesp, espera que o processo coletivo de construção da proposta pedagógica permitam a efetivação do curso nessa ou em outra das universidades do Estado: “A ideia é que a gente se articule para escolher o melhor caminho para a licenciatura”.

Raiane Assumpção, pró-reitora de Extensão e Cultura da Unifesp, sustenta que a reitoria da universidade está acompanhando com entusiasmo a iniciativa indígena e deve se interessar pela criação do curso quando a proposta estiver pronta. Na Unifesp, o projeto também conta com o apoio da Coordenadoria de Direitos Humanos e da Cátedra Kaapora.

Protagonismo indígena
As atividades contaram com participação intensa dos indígenas, tanto no grupo de trabalho como entre os palestrantes. Valdinei Xakriabá, professor que passou pela Formação Intercultural de Educadores Indígenas (FIEI) da UFMG, descreveu como suas pesquisas na licenciatura ajudaram a recuperar a cerâmica tradicional de seu povo.

Eliel Benites, das primeiras turmas formadas pela Licenciatura Intercultural Indígena Teko Arandu, da UFGD, falou de sua trajetória como acadêmico em intenso diálogo com os conhecimentos do povo Kaiowá: “O professor é somente o mensageiro entre o mais velho e a nova geração, entre conhecimento acadêmico e político. É o mensageiro do tempo”, afirmou Benites, que atualmente cursa doutorado em Geografia.

Lenira Dina de Oliveira, professora tupi-guarani vinda do interior do estado, defende que a formação seja específica e diferenciada, como manda a legislação: “Quando a gente se forma em faculdades ‘normais’ depois tem que transformar tudo o que aprendeu para a nossa realidade”. O próprio encontro colocou a diretriz em prática com a participação dos mestres tradicionais Catarina Delfina, do povo Tupi-Guarani, e Carlos Papa, do povo Guarani Mbya, em todos os momentos.

Inaugurando uma série de cinco módulos, as atividades contaram também com o apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), da Secretaria de Educação do Estado (SEE) e do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), mas não teria sido possível sem a mobilização dos próprios indígenas por seu direito à educação – atendendo à antiga demanda por formação para os professores em atuação nas escolas estaduais indígenas.

“Para nós, Guarani, a melhor forma é procurar refletir a licenciatura, o modelo de ensino que a gente quer para nossos professores”, explica Danilo Vera Mirĩ Benites, professor na Terra Indígena Itaoca, litoral paulista. Benites é um dos representantes do Comitê Interaldeias, organização que reúne aldeias impactadas por uma ferrovia e que se mobilizou para que parte da compensação ambiental do empreendimento fosse destinado à efetivação de seu direitos educacionais.