Documentário revela luta dos Guarani-Kaiowá por terras

Mariana Azevedo

Filme, que relata a situação de conflitos no Mato Grosso do Sul, é fruto do trabalho da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados

O documentário Tempos de Retomadas, do diretor Fernando Bola, foi lançado em sessão solene nesta quarta-feira (15), na Câmara dos Deputados. Resultado do relatório da missão que a Comissão de Direitos Humanos e Minorias empreendeu na região, o filme retrata, numa linha do tempo, a situação antiga de conflito que envolve as terras dos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, e todos seus desdobramentos, como genocídio, sequestro, morte e inviabilização de cultivo.

As cenas mostram algumas lideranças indígenas expondo sua realidade, seus medos e desejos para representantes da Comissão, em uma roda de conversa. Com pesar, o caso de assassinato do cacique Marco Veron Guarani-Kaiowá, em 2003, que teve como mandante um fazendeiro local, foi lembrado para mostrar que crimes assim não são sequer investigados.

Alguns relatos de indígenas indicam que eles são violentados cotidianamente por proprietários e produtores da região, e demonstram desespero por estarem desprotegidos pelo Estado. Em contrapartida, há uma fala de um fazendeiro conhecido na região que se diz pronto para a guerra armada contra os índios. Tal declaração nos remete ao discurso dos deputados Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Alceu Moreira (PMDB-RS), em audiência pública no Rio Grande do Sul gravada em vídeo, em que incitam agricultores locais à violência contra indígenas e quilombolas.

Ao final da sessão, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), presidente da Comissão, e a subprocuradora-geral da República, Dra. Deborah Duprat, endossaram a necessidade do cumprimento das leis e do amparo por parte do Estado a essas populações. Pimenta também abriu uma mesa de debate, onde participaram Cleber Buzatto, secretário-executivo do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), deputado Luiz Couto (PT-PB), Thiago Garcia, representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o ex-deputado federal Gilney Viana, Tayla Post, representante de movimentos sociais e estudantis, o deputado Sóstenes Cavalcante (PSD-RJ) e Daiara Tukano, representante do Programa de pós-graduação em Direitos Humanos da Universidade de Brasília.

O discurso geral deu ênfase às necessidades expostas como a urgência da demarcação de terras também ao espanto diante de tamanha truculência registrada.

Única representante indígena no lançamento, Daiara Tukano, disse “diante de tantos espantos aqui, onde todo mundo comentou estar espantado com a realidade, eu também fiquei espantada quando cheguei aqui e de repente percebi que eu era a única indígena que estava aqui tomando nota. Não é por falta de empenho, é porque essas pessoas estão lá no meio de uma guerra, de uma batalha”. Ela fez questão de mostrar o grau da violência a que são submetidos, onde crianças recém-nascidas são decapitadas com arame farpado e nada acontece por parte das autoridades. Ela questionou ainda a posição do governo de um país que vende sua diversidade e beleza para o mundo, mas internamente trata com desdém seus povos originários.

Foto: Alan Azevedo / Greenpeace