Entre saberes e cuidados, mulheres krahô dialogam sobre saúde e prevenção

out 13, 2026

Primeiro ciclo de trabalho reuniu cerca de 100 mulheres em duas aldeias da Terra Indígena Kraolândia e promoveu conversas sobre saúde, HPV e prevenção do câncer do colo do útero, preparando as comunidades para a etapa de rastreamento.

Fernando Ralfer/CTI


Entre os dias 21 e 28 de setembro de 2026, cerca de 100 mulheres krahô participaram do primeiro ciclo das Ações de Saúde da Mulher Krahô, realizado nas aldeias Rio Vermelho e Pedra Branca, na Terra Indígena (TI) Kraolândia – TO. A primeira etapa foi dedicada à educação comunitária, com conversas sobre saúde da mulher, prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero, HPV, além de espaços de escuta e troca de conhecimentos entre as mulheres krahô e as profissionais de saúde indígena.

A iniciativa nasceu a partir de demandas das próprias mulheres em relação à saúde da mulher krahô, e foi construída em articulação com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Tocantins (DSEI-TO). A proposta foi organizada para ampliar o acesso à informação, à prevenção e ao cuidado em saúde da mulher, articulando educação em saúde, atendimento, rastreamento do câncer do colo do útero e acompanhamento dos casos que necessitarem de cuidados complementares.

O câncer do colo do útero, embora seja uma doença prevenível, ainda representa um importante desafio para a saúde das mulheres indígenas. Estudos realizados pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp com 3.231 mulheres de mais de 30 etnias diferentes apontaram maior vulnerabilidade dessa população e destacam que barreiras geográficas, culturais e de acesso aos serviços podem dificultar a prevenção, o rastreamento e a continuidade do cuidado.

Na TI Kraolândia, a primeira etapa foi organizada para aproximar informação e prevenção da realidade das comunidades. Antes da realização dos exames, as atividades buscaram criar espaços para que as mulheres apresentassem seus conhecimentos e experiências, tirassem dúvidas e conhecessem o percurso previsto entre a coleta, o resultado e os possíveis encaminhamentos.

Antes das aldeias, a preparação das equipes

A ação começou nos Polos Base de Goiatins e Itacajá (TO), com encontros entre as consultoras médicas e as Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) que atuam na TI Kraolândia. A etapa teve como objetivo preparar os profissionais para o rastreamento do câncer do colo do útero e promover uma troca sobre a realidade das comunidades, os fluxos de atendimento e os desafios encontrados na região.

Participou da formação a médica obstetra e ginecologista Ana Paula Pina Borges, com mais de 20 anos de experiência na saúde indígena e atuação vinculada ao DSEI Yanomami. Em 2023, Ana Paula esteve na linha de frente do atendimento e da gestão da saúde durante a crise vivida no território yanomami.

Também integrou a atividade a enfermeira especialista em ginecologia e obstetrícia Mariana Queiroz, que atua na atenção básica à saúde dos povos indígenas no Parque Indígena do Xingu, coordenando o programa de saúde da mulher do Projeto Xingu, iniciativa de extensão universitária da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

A atividade contou ainda com representantes do DSEI Tocantins: a enfermeira Heide Souza Porto, Responsável Técnica de Saúde da Mulher, e a enfermeira Bárbara Giovana Rodrigues, Responsável Técnica pelas áreas de hanseníase, ISTs e saúde do adolescente. As equipes das EMSI dos Polos Base de Goiatins e Itacajá também participaram da formação e das discussões sobre a organização das etapas seguintes.

Durante os encontros, foram abordados aspectos do teste molecular de DNA-HPV, incluindo o funcionamento do exame, as etapas do procedimento e os cuidados necessários para a realização e o registro das coletas. Ao mesmo tempo, as consultoras puderam conhecer, a partir das equipes locais, aspectos da rotina de atendimento e das características da região, contribuindo para o planejamento das atividades nas aldeias.

Para a médica Ana Paula Pina Borges, a aproximação entre os conhecimentos técnicos e aqueles já existentes nas comunidades é parte fundamental do trabalho.

“A gente não vai vir aqui ensinar elas sobre o corpo delas. A gente só dá um empurrãozinho para juntar uma coisa com a outra”, explica.

A formação em serviço integra a metodologia prevista e busca fortalecer a capacidade das equipes locais para atuar na educação em saúde, na orientação das mulheres, no rastreamento do câncer, no registro das informações e no acompanhamento dos casos.

A partir desse diálogo, as equipes do CTI e do DSEI Tocantins também avançaram no planejamento da etapa de realização dos exames, considerando os locais de atendimento, a composição das equipes, os insumos e o fluxo de coleta, transporte, processamento das amostras e acompanhamento dos resultados.

Nas aldeias, o diálogo parte dos saberes das mulheres

Depois da formação com as equipes de saúde, as atividades chegaram às comunidades Krahô. Os encontros aconteceram nas aldeias Rio Vermelho, na porção nordeste da TI Kraolândia, e Pedra Branca, na porção oeste do território.

Na Rio Vermelho, participaram também mulheres das aldeias Bacuri, Capitão do Campo, Boa Vista, Aldeia Nova, Kyjpekrĩ, Cachoeira, Areia Branca, Sol e Recanto dos Irmãos. Na Pedra Branca, estiveram presentes mulheres das aldeias Campos Limpos, Pau Brasil, Mangabeira, Manoel Alves, Betânia, Forno Velho, Paraíso, Riozinho, Galheiro, Morro do Boi, Lagoinha e Serra Grande.

Para favorecer o diálogo intercultural, as conversas começaram pelas próprias mulheres. Em vez de partir diretamente das informações sobre exames e doenças, a equipe perguntou sobre os cuidados com a saúde no cotidiano. As participantes compartilharam práticas de resguardo observadas em diferentes momentos da vida, falaram sobre suas formas de compreender o corpo e nomearam partes do corpo em sua própria língua.

As cantorias e os momentos culturais ajudaram a criar um ambiente de participação e aproximação, favorecendo a troca entre mulheres de diferentes aldeias.

“A cantoria vem com a alegria, a pintura vem com a alegria. A gente tem cantoria, tem corrida de tora, tem corte de cabelo, tem pintura. Esses são ritos que nós nunca vamos deixar”, explica Cleonice Krahô, enfatizando que essas práticas fazem parte do próprio modo de viver e cuidar da saúde.

Mais do que acompanhar a programação, esses momentos contribuíram para que a conversa acontecesse de forma mais aberta e participativa, fortalecendo os vínculos entre mulheres de diferentes aldeias e criando espaço para a circulação de conhecimentos e experiências.

Em outra atividade, as mulheres também utilizaram argila para representar e expressar temas discutidos durante a conversa, trazendo para a atividade questões relacionadas ao corpo, à reprodução e à gestação.

Entre os conhecimentos compartilhados esteve o resguardo, apresentado pelas participantes como uma prática de cuidado e proteção, conforme conta Cleonice Krahô.

“Enquanto estou fazendo resguardo, estou me protegendo para não acontecerem doenças. Então, eu tenho essa proteção de cuidar de mim mesma, de ter mais vida pela frente.”

Já Gercilha Krytkwyj Krahô destacou a possibilidade de colocar em diálogo conhecimentos diferentes durante a atividade.

“Vocês vêm com a sabedoria de vocês encontrando a nossa sabedoria, e nós comparamos se elas estão andando juntas.”

Para a enfermeira Mariana Queiroz, esse encontro também fortalece as relações entre as próprias mulheres.

“Quando a gente traz mulheres para conversar sobre assuntos que são sensíveis à vida da mulher, elas se enxergam nas outras mulheres. E isso traz uma força que estava ali, às vezes, um pouco escondida, mas que ela percebe que tem.”

Do medo à compreensão do exame

Depois das conversas sobre saúde e as práticas de cuidado, a atividade avançou para um dos temas centrais da próxima etapa: o rastreamento do câncer do colo do útero. As consultoras apresentaram materiais educativos que representavam a vagina e o colo do útero e demonstraram como é feita a coleta, explicando as etapas do procedimento e abrindo espaço para perguntas.

A demonstração também permitiu que as mulheres falassem sobre experiências anteriores e sobre os receios que podem surgir diante de um procedimento íntimo.

Para a médica Ana Paula Pina Borges, esse cuidado é especialmente importante no contexto indígena, em que o rastreamento pode ser dificultado tanto pelo acesso aos serviços quanto por questões culturais e pela própria natureza do exame.

“É um exame íntimo, que precisa de uma delicadeza para fazer. Então, a informação, o conhecimento e o diálogo de esclarecimento são fundamentais para que elas possam procurar esse cuidado sem medo.”

As profissionais explicaram o que o teste de DNA-HPV identifica, como a coleta é realizada e quais podem ser os próximos passos após o resultado. A orientação antes do procedimento permite que cada mulher conheça a finalidade do exame e compreenda suas etapas e possíveis encaminhamentos.

A discussão percorreu ainda a prevenção, desde a vacinação contra o HPV até o rastreamento e o acompanhamento dos casos que necessitarem de cuidados complementares. Ao final, as participantes construíram um documento coletivo, reunindo suas expectativas sobre acolhimento, privacidade, comunicação e conforto durante os procedimentos.

Do diálogo ao rastreamento

A próxima etapa das Ações de Saúde da Mulher Krahô será dedicada à realização do rastreamento do câncer do colo do útero e está prevista para ocorrer em novembro de 2026. Os atendimentos serão organizados nos pontos de convergência definidos a partir do trabalho realizado no primeiro ciclo.

O rastreamento será realizado por meio do teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico, com orientação individual, coleta das amostras, identificação, acondicionamento e envio ao laboratório. A ação prevê que os atendimentos sejam realizados em espaços que assegurem privacidade, higiene e condições adequadas para a coleta, com participação dos profissionais das equipes locais.

Já a terceira etapa, prevista para janeiro de 2027, será dedicada à devolutiva dos resultados e ao seguimento. Cada mulher testada deverá receber seu resultado individualmente, de forma confidencial e compreensível, acompanhada das orientações sobre a conduta necessária. Os casos que exigirem nova avaliação, investigação complementar, tratamento ou encaminhamento para outros serviços deverão ser acompanhados pelas equipes responsáveis.

A proposta é que o cuidado permaneça articulado entre o CTI, DSEI Tocantins, Polos Base de Itacajá e Goiatins, e equipes de saúde indígena.

“A gente leva informação de qualidade. Mas, ao mesmo tempo, coloca para aquela pessoa que ela tem capacidade de decidir coisas, que ela tem possibilidade de fazer críticas, de refletir sobre aquilo”, explica a enfermeira Mariana Queiroz.

Esse movimento também aparece na fala de Marciana Amxykwyj Krahô, da aldeia Pedra Branca, que percebeu a repercussão das conversas para além dos encontros.

“Essas conversas estão abrindo caminhos para as mulheres e ajudando a mudar a maneira como elas veem o exame. Hoje, mais pessoas daqui estão se reunindo e escutando. E elas também estão levando essa conversa para suas famílias e acreditando que todas vão fazer o exame”, explica.

As Ações em Saúde da Mulher Krahô são realizadas pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e pela Associação Wyty Catë das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins, em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Tocantins, no âmbito do projeto “Território e Saúde: Olhares e Estratégias Guarani e Timbira”, com apoio do Fundo Amazônia/BNDES.