Fernando Ralfer/CTI
Com a colaboração de Jaime Siqueira e Renan Chaves
Do alto das chapadas que cercam o Parque Estadual do Mirador, no sul do Maranhão, o Cerrado parece contínuo. Veredas, campos e matas de galeria conectam terras indígenas, unidades de conservação e comunidades tradicionais em uma mesma paisagem. Nos últimos anos, porém, essa continuidade passou a ser interrompida pelo avanço acelerado da fronteira agrícola. A expansão das lavouras de soja transformou grandes extensões de vegetação nativa, ampliou o desmatamento, pressionou territórios tradicionais e alterou profundamente uma das regiões mais estratégicas para a conservação da biodiversidade e das águas do Cerrado.
Foi diante desse cenário que começou a ganhar forma uma articulação que hoje reúne povos indígenas, agricultores familiares, comunidades tradicionais e organizações da sociedade civil em torno de um objetivo comum: a criação do Mosaico Mirador.
Previsto pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), o mosaico é um instrumento de gestão territorial que integra áreas protegidas vizinhas por meio de estratégias compartilhadas de conservação, proteção territorial e participação social. Mais do que uma figura administrativa, é uma ferramenta capaz de aproximar territórios que compartilham desafios e construir respostas coletivas para problemas que ultrapassam fronteiras.

No caso do Mosaico Mirador, a proposta reúne o Parque Estadual do Mirador, as Terras Indígenas (TIs) Bacurizinho, Porquinhos, Kanela Memortumré, Cana Brava, Rodeador, Morro Branco, além da Reserva Indígena Krenjê – formando o mosaico com maior número de terras indígenas do Brasil.
Mas essa história começou muito antes do termo “mosaico” entrar no vocabulário das organizações e das comunidades da região.
Uma história que começou lá atrás
Quando a proposta do Mosaico Mirador começou a ganhar visibilidade, muita gente a enxergou como uma iniciativa recente. Para quem acompanha a região há décadas, porém, ela representa a continuidade de uma história iniciada muito antes.
“A discussão sobre a conservação do Cerrado, de toda essa região do sul do Maranhão, não começou agora.” Jaime Siqueira
A afirmação do antropólogo Jaime Siqueira, presidente do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e um dos articuladores da proposta, ajuda a compreender a origem do Mosaico Mirador.
Nos anos 1990, povos Timbira, agricultores familiares, comunidades agroextrativistas e organizações parceiras criaram uma rede de cooperação voltada à valorização dos frutos do Cerrado e ao fortalecimento de economias locais baseadas no uso sustentável da biodiversidade. Mais do que uma iniciativa econômica, a rede consolidou uma aliança entre povos indígenas e comunidades camponesas em torno de uma compreensão compartilhada: conservar o Cerrado era condição para garantir seus modos de vida.
Para Joaquim Alves, presidente da Cooperativa Agroecológica pela Vida do Cerrado Sul Maranhense (Coopevida), aquele período marcou profundamente a região.
“Foi uma das experiências mais importantes que já vivi, trabalhar essa relação entre indígenas e trabalhadores rurais. Foi uma experiência de muita luta, de muito trabalho e de muito enfrentamento aqui na região sul do Maranhão, mas também uma experiência de muita formação e capacitação.” Joaquim Alves
Segundo Joaquim, essa articulação representou também um dos primeiros movimentos organizados de enfrentamento ao avanço do desmatamento e do agronegócio no sul maranhense.
“Essa experiência foi importantíssima porque demos os primeiros passos no enfrentamento ao desmatamento e ao avanço do agronegócio. Era uma forma de mostrar que existia produção nessa região e reafirmar nossa condição de agricultores familiares, indígenas e não indígenas.”

Décadas depois, essa memória voltaria a ganhar força.
“No fundo, o que nós estamos fazendo com o Mosaico é a atualização dessa aliança e dessa parceria histórica”, resume Jaime Siqueira.
A frase ajuda a explicar por que a proposta encontrou receptividade entre grupos tão diversos. O Mosaico Mirador não nasce de uma estrutura criada de fora para dentro. Ele se apoia em relações de confiança construídas ao longo de décadas e em uma percepção compartilhada: proteger o Cerrado exige construir alianças entre aqueles que vivem e dependem desse território.
O alerta que veio das paisagens transformadas
A partir de 2023, organizações da sociedade civil reunidas na Coalizão Cerrado em Pé – importante articulação que atua na defesa e proteção do Cerrado maranhense –, passaram a monitorar com maior atenção o avanço do desmatamento no sul do Maranhão. Os dados confirmam aquilo que as comunidades já percebiam em campo: o Cerrado estava sendo rapidamente convertido em áreas de produção agrícola.
Ao mesmo tempo, levantamentos realizados pelo CTI identificavam uma transformação acelerada nas áreas situadas entre as TIs Porquinhos, Kanela e o Parque Estadual do Mirador.
Onde antes predominava uma extensa área contínua de Cerrado, surgiram novas lavouras mecanizadas, estradas e grandes propriedades rurais. Os levantamentos apontavam aumento do desmatamento, fragmentação da vegetação nativa e redução da conectividade ecológica, especialmente no Parque Estadual do Mirador e nos territórios reivindicados pelos povos Kanela-Memortumré e Kanela-Apãnjekrá. Também registravam a expansão das propriedades privadas sobre áreas reivindicadas para ampliação das terras indígenas.
Esses diagnósticos reforçaram uma percepção compartilhada pelas comunidades locais: proteger cada território isoladamente já não bastava.
O território que o mosaico pretende conectar
O núcleo do Mosaico Mirador é formado pelo Parque Estadual do Mirador — com mais de 700 mil hectares — e as TIs Bacurizinho, Porquinhos, Kanela Memortumré, Cana Brava e Rodeador, além da Reserva Indígena Krenjê. Juntos, esses territórios formam uma das maiores extensões contínuas de Cerrado preservado no Maranhão.

Mais do que áreas vizinhas, esses territórios compartilham rios, nascentes, corredores ecológicos, fauna e uma longa história de ocupação tradicional. A proposta do mosaico parte justamente desse reconhecimento: a dinâmica da água, da biodiversidade e dos modos de vida não segue os limites desenhados nos mapas.
Ricardo Kaparekô Kanela, liderança do povo Kanela-Memortumré e integrante do Conselho Consultivo do Parque Estadual do Mirador, avalia que essa é uma das razões que tornam a proposta do mosaico estratégica.
“Ela é muito importante para a preservação das nascentes dos rios, como as do Itapecuru, do Alpercatas e de tantos outros cursos d’água.” Ricardo Kaparekô Kanela
A importância hídrica da região é um dos motivos pelos quais sua proteção mobiliza diferentes atores. O relatório final do “Levantamento dos impactos ambientais de atividades econômicas incidentes nas áreas do entorno das TIs Porquinhos e Kanela”, realizado em abril de 2024 por encomenda do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), identificou aproximadamente 1.200 nascentes na área de estudo, muitas delas concentradas nas chapadas que circundam o Parque Estadual do Mirador. Essas áreas funcionam como zonas de recarga hídrica e têm importância para a manutenção dos cursos d’água que atravessam os territórios indígenas e abastecem comunidades e municípios da região.

Além de abrigar espécies ameaçadas de extinção, o Parque Estadual do Mirador exerce papel estratégico na proteção das nascentes e dos corredores ecológicos que sustentam a biodiversidade regional. Para os povos indígenas e comunidades tradicionais, o Cerrado é também espaço de memória, cultura e produção de conhecimento. É onde estão os caminhos percorridos pelas gerações mais antigas, os locais de coleta de frutos, as áreas de uso tradicional, os espaços de realização de práticas culturais e os recursos que garantem a continuidade de seus modos de vida.





A fronteira que avança sobre o Cerrado
As mudanças observadas no entorno do Parque Estadual do Mirador fazem parte de um processo mais amplo: a expansão agrícola sobre o Cerrado maranhense.
Inserida na região conhecida como Matopiba — acrônimo formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, essa área tornou-se uma das principais frentes de expansão do agronegócio brasileiro. O avanço das lavouras mecanizadas, especialmente de soja, milho e eucalipto, intensificou o desmatamento, ampliou a pressão sobre terras indígenas e acelerou a fragmentação da vegetação nativa.
Embora ocupe pouco mais de 18% do Cerrado brasileiro, o Matopiba respondeu por cerca de 42% de toda a vegetação nativa suprimida no bioma em 2023. Nas terras indígenas, aproximadamente 90% do desmatamento registrado ocorreu nesta região. No entorno do Parque Estadual do Mirador, esse processo foi agravado por outro fator: a demora na regularização das áreas reivindicadas pelos indígenas das TIs Kanela, Porquinhos e Bacurizinho. Ao longo dos anos, grandes propriedades rurais passaram a ocupar justamente os espaços localizados entre terras indígenas e o parque, ampliando o desmatamento, fragmentando corredores ecológicos e aumentando os conflitos fundiários.
O levantamento realizado pelo CTI em 2024 identificou ainda propriedades privadas sobrepostas às áreas reivindicadas pelos povos indígenas, além da rápida conversão da vegetação nativa em áreas agrícolas. Em diversos trechos, a perda da conectividade entre remanescentes de Cerrado passou a comprometer processos ecológicos essenciais e a circulação da fauna.

Para Ricardo Kaparekô Kanela, liderança do povo Kanela-Memortumré e integrante do Conselho Consultivo do Parque Estadual do Mirador, esses processos ajudam a explicar por que a criação do Mosaico Mirador se tornou estratégica.”Ele fortalece a defesa dos nossos territórios diante do desmatamento, do avanço do agronegócio e dos impactos provocados pelo Matopiba, além das grilagens que se aproximam cada vez mais das nossas terras.”
Nos últimos anos, porém, as disputas sobre o território deixaram de se restringir à expansão agrícola. Grandes empreendimentos de infraestrutura e energia passaram a se somar aos conflitos fundiários, ampliando a complexidade dos desafios enfrentados pela região.
Um dos episódios que evidenciou essa dinâmica ocorreu em 2025, quando o Projeto de Lei nº 280/2024, de autoria do deputado estadual Eric Costa (Partido Social Democrático), propôs retirar cerca de 20% da área do Parque Estadual do Mirador para regularizar ocupações privadas existentes em seu interior. A iniciativa provocou reação de pesquisadores, organizações indigenistas e socioambientais e lideranças indígenas, que alertaram para os riscos de reduzir a proteção de uma das áreas mais importantes para a conservação do Cerrado maranhense.
Ao mesmo tempo, reportagens publicadas pela InfoAmazonia revelaram que cerca de 75% da Reserva Indígena Krenjê está sobreposta ao bloco PN-T-117, concedido para exploração de gás natural na Bacia do Parnaíba. Após as publicações, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento para apurar as circunstâncias do licenciamento e da exploração na região.
Para Raimunda Francisca Vieira Paz, diretora da Associação Camponesa (ACA), é justamente dessa percepção que nasce o Mosaico Mirador.
“O mosaico surge como uma resposta concreta a esse cenário, como uma estratégia de proteção do território que reconhece que essas áreas estão interligadas e precisam ser pensadas de forma conjunta.” Raimunda Francisca Vieira Paz
Foi essa compreensão que levou diferentes organizações, lideranças indígenas e comunidades tradicionais a iniciarem a construção coletiva do Mosaico Mirador.
O que nos une?
Em agosto de 2025, representantes de povos indígenas, agricultores familiares, comunidades tradicionais, sindicatos de trabalhadores rurais, pesquisadores e organizações da sociedade civil reuniram-se na Câmara Municipal de São Raimundo em uma oficina de construção do Mosaico Mirador.
Promovido pelo CTI, em parceria com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e a Cooperativa Agroecológica pela Vida do Cerrado Sul Maranhense (Coopevida), o encontro reuniu atores que raramente ocupavam a mesa de diálogo. Lideranças indígenas compartilharam o espaço e dividiram a mesa com representantes de assentamentos, sindicatos de trabalhadores rurais, conselheiros do Parque Estadual do Mirador, organizações parceiras e agricultores familiares para discutir um desafio comum: como proteger um território cada vez mais pressionado pelo avanço da fronteira agrícola?
A programação da oficina foi organizada em torno de uma pergunta simples: o que nos une?
A resposta não surgiu de imediato. Enquanto os grupos analisavam mapas, identificavam áreas prioritárias e discutiam problemas comuns, algumas palavras começaram a se repetir nas mesas de trabalho: água, Cerrado, território, desmatamento, permanência, futuro.
A oficina também permitiu que os participantes compartilhassem experiências já consolidadas de gestão integrada. Entre elas estava o Mosaico Gurupi, reconhecido oficialmente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em 2025. A iniciativa é formada pela Reserva Biológica do Gurupi e pelas TIs Arariboia, Caru, Awá, Alto Turiaçu, Rio Pindaré e Alto Rio Guamá. Distribuída entre Maranhão e Pará, ela reúne cerca de 46 mil km², abriga o maior remanescente de floresta amazônica do Maranhão e é também uma das iniciativas desse tipo no Brasil com o maior número de terras indígenas.
Ao final da oficina, a pergunta que havia orientado os debates parecia encontrar uma resposta.
O que unia aqueles grupos não era uma identidade comum, mas a consciência de que nenhum deles conseguiria enfrentar sozinho as transformações em curso no Cerrado maranhense. A defesa da água, da biodiversidade e dos territórios tornava-se, assim, o ponto de convergência entre povos indígenas, agricultores familiares, comunidades tradicionais e organizações parceiras.
A construção do Mosaico Mirador também conta com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), cuja parceria tem sido fundamental para o desenvolvimento das ações de articulação, mobilização e fortalecimento da proposta ao longo desse processo.
Da articulação territorial à agenda institucional
Depois da oficina em São Raimundo das Mangabeiras, o desafio passou a ser outro: transformar a articulação construída entre povos indígenas, agricultores familiares, comunidades tradicionais e organizações parceiras em uma agenda política capaz de mobilizar diferentes esferas do poder público.
Essa nova etapa começou a ganhar forma em fevereiro de 2026. Representantes das TIs Bacurizinho, Porquinhos, Kanela Memortumré, Cana Brava, Rodeador, da Reserva Indígena Krenjê, além de moradores do entorno do Parque Estadual do Mirador e organizações parceiras, reuniram-se no Centro Timbira de Ensino e Pesquisa Pënxwyj Hëmpejxà, em Carolina (MA), para revisar os estudos produzidos até então e definir os próximos passos da iniciativa.




Durante dois dias, os participantes discutiram os limites da proposta, mapearam prioridades e estabeleceram estratégias para ampliar a articulação política em torno do mosaico.
A experiência acumulada em outras regiões também contribuiu para amadurecer a proposta. Em novembro de 2024, durante um seminário realizado na Terra Indígena Caru, lideranças Timbira conheceram de perto o funcionamento do Mosaico Gurupi, incorporando ao debate referências de cooperação entre áreas protegidas e fortalecendo a percepção de uma articulação semelhante poderia ser construída no Cerrado maranhense.
Nos meses seguintes, a proposta também passou a dialogar com a Rede de Mosaicos de Áreas Protegidas (Remap), principal articulação nacional dedicada ao fortalecimento dos mosaicos brasileiros. A aproximação ampliou o intercâmbio de experiências e ofereceu apoio técnico ao processo de construção do Mosaico Mirador.
Em abril de 2026, representantes do CTI, da Associação Wyty Catë das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins, da Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima) e da Associação de Mulheres Indígenas do Maranhão (Amima) cumpriram uma agenda de reuniões em Brasília com o MMA, o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Os encontros apresentaram oficialmente a proposta do Mosaico Mirador aos órgãos federais e abriram um diálogo sobre caminhos para o seu reconhecimento, destacando a importância estratégica da região para a conservação do Cerrado, a conectividade entre áreas protegidas e a proteção dos territórios indígenas.
Ainda em abril, uma delegação formada por lideranças indígenas, representantes de comunidades tradicionais, agricultores familiares e organizações parceiras esteve em São Luís (MA) para apresentar a proposta à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e ao MPF.
Na Sema, a iniciativa foi recebida como um instrumento capaz de fortalecer a proteção ambiental e promover a integração entre o Parque Estadual do Mirador e os territórios indígenas da região. Entre os encaminhamentos discutidos estavam a abertura de procedimentos administrativos para análise da proposta e a construção de mecanismos de governança compartilhada.
No MPF, as discussões concentraram-se na proteção dos territórios indígenas, nos conflitos fundiários existentes na região e nas possibilidades de atuação institucional para fortalecer a implementação da iniciativa.






Fotos: Bebeto Kanela/Acervo CTI.
As agendas em Brasília produziram desdobramentos nos meses seguintes. Em 31 de julho de 2026, o Ministério dos Povos Indígenas manifestou oficialmente apoio à criação do Mosaico Mirador, considerando a proposta estratégica para a conservação da biodiversidade, a conectividade ecológica e a proteção dos territórios indígenas.
Para Raimunda Francisca Vieira Paz, diretora da Associação Camponesa (ACA), de Balsas (MA), é justamente nessa etapa que se encontra um dos maiores obstáculos da iniciativa.
“Um dos principais entraves é a própria complexidade da articulação institucional. Para que o mosaico seja formalizado, é necessário envolver diferentes esferas de governo, além de órgãos como a Funai, o ICMBio e outras instituições responsáveis pela gestão territorial e ambiental. Essa articulação exige não apenas diálogo, mas também vontade política, continuidade das ações e recursos para garantir uma gestão participativa e efetiva.”
O futuro do Mosaico Mirador
Apesar do avanço das articulações e do apoio manifestado por diferentes instituições, o Mosaico Mirador ainda não existe formalmente. O que existe hoje é um processo em construção, resultado de anos de diálogo entre povos indígenas, agricultores familiares, comunidades tradicionais, pesquisadores, organizações da sociedade civil e órgãos públicos em torno de um objetivo comum: proteger uma das regiões mais estratégicas do Cerrado maranhense.
A formalização do mosaico ainda depende de uma série de etapas institucionais. A proposta reúne áreas submetidas a diferentes formas de gestão, exige a participação de órgãos federais e estaduais e pressupõe a criação de uma governança capaz de manter o diálogo entre atores com responsabilidades e interesses distintos.
Enquanto esse processo avança, o território continua em transformação. A expansão das lavouras mecanizadas, os conflitos fundiários, a valorização das terras, os grandes empreendimentos de infraestrutura e energia e as disputas em torno do uso dos recursos naturais seguem ampliando a pressão sobre a região. Em 2025, segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil – RAD2025, do MapBiomas, o Maranhão voltou a figurar entre os estados que mais desmataram no país.

A proposta do Mosaico Mirador não surgiu da criação de uma nova unidade de conservação. Ela nasceu da percepção de que os problemas enfrentados pelo Parque Estadual do Mirador, pelas terras indígenas e pelas comunidades rurais do entorno não podem ser compreendidos isoladamente. A água que abastece diferentes municípios nasce nas mesmas chapadas. Os corredores utilizados pela fauna atravessam limites administrativos — assim como o avanço do desmatamento.
Essa percepção foi aproximando grupos que possuíam trajetórias distintas, mas que compartilhavam interesses comuns. A criação do mosaico tornou-se, assim, menos uma discussão sobre limites geográficos e mais um esforço para construir formas permanentes de cooperação entre aqueles que vivem, trabalham e protegem essa região.

Para Geruza Guajajara, moradora da Aldeia Gameleira, na TI Bacurizinho, esse processo só fará sentido se reconhecer o papel dos povos indígenas na condução dessa agenda.
“Na perspectiva do povo Guajajara, é fundamental que a gestão do mosaico respeite a nossa participação e reconheça os nossos saberes tradicionais, porque somos os primeiros guardiões da floresta e temos um papel essencial na proteção da natureza.”
Essa visão compartilhada fortaleceu uma articulação que vinha sendo construída havia anos entre povos indígenas, agricultores familiares e organizações parceiras. Para seus participantes, conservar o Cerrado não significa apenas preservar a vegetação nativa ou proteger espécies ameaçadas. Significa criar condições para que povos indígenas, agricultores familiares e comunidades tradicionais permaneçam em seus territórios e continuem desempenhando o papel que historicamente exerceram na conservação dessa região, como resume Geruza Guajajara:
“A proteção do território é também a proteção da nossa vida, da nossa ancestralidade e do futuro das próximas gerações.” Geruza Guajajara
O reconhecimento oficial do Mosaico Mirador ainda é uma etapa a ser conquistada. Mas o processo de construção da proposta mobilizou e aproximou grupos que, diante das transformações em curso no Cerrado maranhense, passaram a construir coletivamente uma agenda comum para o futuro da região.

