Por Nataly Foscaches/CTI
O Cerrado continua sendo o bioma mais desmatado do Brasil. Enquanto a Amazônia concentra boa parte das atenções sobre a conservação ambiental, os povos indígenas que vivem nesse bioma convivem diariamente com o avanço do desmatamento, o uso intensivo dos agrotóxicos e dos conflitos em seus territórios.
A destruição da vegetação compromete as nascentes, reduz a disponibilidade de alimentos e plantas medicinais e ameaça modos de vida construídos e preservados ao longo de gerações.
Foi nesse cenário que surgiu, em 2004, a Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (MOPIC). A organização reúne representantes de 62 povos presentes em mais de 80 territórios no Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Tocantins e Distrito Federal. Há mais de duas décadas, o movimento articula povos que compartilham desafios comuns na defesa de seus territórios.
No fim de junho, representantes de diferentes regiões do Cerrado voltaram a se encontrar. Durante quatro dias, reuniram-se em Brasília e, depois, em território Terena, em Mato Grosso do Sul, para discutir os rumos da organização, definir prioridades e compartilhar experiências sobre gestão territorial, agroecologia e conservação ambiental.
Uma coordenação para um novo momento
Os dois primeiros dias do encontro aconteceram em Brasília, nos dias 24 e 25 de junho. A reunião marcou o início de um novo ciclo para a MOPIC, que passa por um processo de reorganização interna e ampliação de sua representação política.
Representantes dos povos Apinajé, Krahô, Kanela Apãnjekra, Gavião Pykobjê, Gavião Parkatêjê, Tuxá, Kisêdjê, Guarani Kaiowá, Krikati e Xavante reuniram-se com integrantes do CTI, do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e do Ministério dos Povos Indígenas para definir as prioridades da organização para os próximos meses.






Uma das principais mudanças foi a criação de uma coordenação coletiva, substituindo o modelo concentrado em uma única liderança. A proposta busca distribuir responsabilidades e ampliar a participação das diferentes regiões do Cerrado nas decisões da organização.
A nova coordenação é formada por:
- Arlete Krikati – coordenadora-geral;
- Dilson Duarte Guarani Kaiowá – vice-coordenador-geral;
- Hiparidi Top Tiro – conselheiro político;
- Maria José Apãnjekra – coordenadora regional do Maranhão;
- Maria José Apinajé – coordenadora regional do Tocantins;
- Letícia Krahô – coordenadora regional do Tocantins;
- Edivaldo Gavião Pykobjê- coordenador regional de Mato Grosso;
- Anália Tuxá – coordenadora regional de Minas Gerais;
- Winti Kisêdjê – coordenador regional de Mato Grosso;
- Lileia Guarani Kaiowá – coordenadora regional de Mato Grosso do Sul.
- Airy Gavião Parkatêjê – coordenadora regional do Distrito Federal.
O encontro também evidenciou outra transformação em curso: o fortalecimento da participação das mulheres na condução política da MOPIC. As participantes defenderam que essa presença seja ampliada não apenas na organização, mas também nos espaços de decisão relacionados à proteção do Cerrado. “Quando a gente entra no movimento, vai conhecendo pessoas, inclusive outras mulheres e percebe que nossas lutas são as mesmas. A gente quer melhorar o território, proteger o Cerrado e garantir um futuro para as próximas gerações”, afirma Letícia Krahô.
O Cerrado no centro das discussões
Vindos de diferentes regiões do Cerrado, os representantes relataram desafios semelhantes. A pressão sobre os territórios indígenas, os conflitos fundiários, os processos de demarcação e desintrusão, as mudanças climáticas e o avanço do crime organizado apareceram de forma recorrente nas discussões.
Outro tema recorrente foi o monitoramento territorial. Os participantes discutiram como ampliar a proteção dos territórios, combinando conhecimentos tradicionais com drones, celulares e sistemas de registro de ocorrências.
Os impactos da pulverização aérea de agrotóxicos também estiveram entre as principais preocupações. Representantes de diferentes povos relataram situações semelhantes em seus territórios e defenderam uma atuação mais articulada da MOPIC sobre o tema.
Mais do que problemas locais, os participantes apontaram um desafio comum: ampliar a presença dos povos indígenas do Cerrado nos espaços onde são formuladas e acompanhadas as políticas públicas.
“O desafio na MOPIC é como a gente vai conseguir se adentrar nas políticas, nas incidências, porque o foco do país e internacional é a Amazônia. A gente precisa estar ali perto, cobrando e fazendo essas incidências para que os povos do Cerrado sejam ouvidos”, afirma Edivaldo Gavião Pykobjê.
Para Anália Tuxá, coordenadora regional da MOPIC em Minas Gerais, a existência de uma organização voltada especificamente para o Cerrado responde a uma necessidade histórica dos povos que vivem no bioma. “A MOPIC é importante porque ela se trata de uma organização, um movimento que é voltado para o Cerrado. Ele é o segundo maior bioma e é o que sustenta o bioma da Amazônia.”
Do território à incidência política
As discussões em Brasília não ficaram restritas ao diagnóstico dos desafios enfrentados pelos povos indígenas do Cerrado. Ao final do encontro, a nova coordenação definiu uma agenda de atuação para os próximos meses, voltada à ampliação da presença da MOPIC nos espaços de formulação e acompanhamento de políticas públicas.
Entre as prioridades estão fortalecer a participação da organização no Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e no Comitê Gestor da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), ampliar a articulação com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e consolidar sua atuação na Rede Cerrado.
Durante a reunião, as lideranças também discutiram a criação da Plataforma MOPIC, um ambiente digital que reunirá informações sobre os territórios indígenas do Cerrado, incluindo dados sobre recursos hídricos, manejo do fogo, biodiversidade e áreas de transição entre biomas. A iniciativa deverá apoiar a incidência em políticas públicas, a elaboração de projetos e fortalecer a produção e a sistematização de informações sobre os povos indígenas do Cerrado.
O encontro também abriu espaço para refletir sobre o futuro da organização
Joyce Barbosa, responsável pelo componente indígena do Programa COPAÍBAS da Funbio, avaliou as ações desenvolvidas em benefício dos povos indígenas do Cerrado ao longo da parceria com a MOPIC. O encontro também permitiu discutir os desafios enfrentados pelas organizações indígenas para acessar e executar iniciativas dessa natureza, cuja fase atual está prevista para ser concluída em 2027. A reunião e o intercâmbio contaram com o apoio do Programa.
Troca de experiências em território Terena
Depois da reunião em Brasília, os participantes seguiram para as Terras Indígenas Cachoeirinha e Buriti, em Mato Grosso do Sul. Se, na capital federal, o foco esteve voltado às estratégias de atuação da MOPIC, em território Terena o encontro foi dedicado à troca de experiências desenvolvidas pelas próprias comunidades.
A programação incluiu visitas a roças agroecológicas, à Feira de Troca de Sementes e a iniciativas de recuperação ambiental. Ao longo do intercâmbio, representantes de diferentes povos conheceram práticas voltadas à recuperação de áreas degradadas, à conservação de sementes tradicionais e ao fortalecimento da produção de alimentos nos territórios.






A Feira de Troca de Sementes foi realizada na Aldeia Pahô Sîni, liderada por Vania Candelário, primeira mulher a assumir a função de cacica entre os Terena. A presença feminina, que já havia marcado as discussões em Brasília, voltou a aparecer como um dos aspectos centrais do encontro.
Mais do que conhecer iniciativas desenvolvidas em outro território, o intercâmbio permitiu compartilhar experiências sobre soberania alimentar, gestão territorial e recuperação ambiental, aproximando povos que enfrentam desafios semelhantes no Cerrado. “A gente sempre teve essa preocupação com o depois. As roças agroecológicas vêm para dar essa contrapartida para a gente”, afirma a coordenadora das mulheres Terena e membro da MOPIC, Daniele Lourenço.
Para Liana Onça, coordenadora das ações estratégicas do CTI, encontros como esse criam oportunidades para que experiências desenvolvidas em um território inspirem outros povos. “Quando diferentes povos se encontram para compartilhar experiências, todo mundo aprende. A MOPIC cresce com essa troca e fortalece sua capacidade de enfrentar desafios comuns do Cerrado.”
Um novo ciclo
Ao final dos quatro dias de atividades, a MOPIC encerrou o encontro com uma coordenação renovada, prioridades políticas definidas e uma agenda comum para os próximos meses. A reorganização da estrutura de coordenação, o fortalecimento da incidência política e a troca de experiências entre diferentes povos apontam para um momento de renovação da organização.
A aposta é ampliar a presença dos povos indígenas do Cerrado nos espaços de decisão e fortalecer a cooperação entre territórios que compartilham desafios comuns na defesa do bioma.

