Entre cantos, decisões e memória: juventude Terena transforma assembleia em marco de organização e futuro

fev 13, 2026

A aldeia Cachoeirinha tornou-se palco de organização e reafirmação da juventude Terena.

Por Tiago Kirixi Munduruku/CTI

O sol ainda surgia tímido no horizonte quando os primeiros cantos começaram a ecoar pela aldeia Cachoeirinha, em Mato Grosso do Sul. O som do purunga marcava o compasso, enquanto jovens se acomodavam em círculo, alguns em silêncio, outros trocando impressões sobre a viagem. Havia poeira nos pés de quem veio de longe, mas também brilho nos olhos de quem compreendia a dimensão daquele encontro. A IX Assembleia da Juventude do Povo Terena começava não apenas como agenda política, mas como reencontro com a própria essência.

A abertura espiritual, conduzida pela juventude Guarani e Kaiowá, trouxe palavras de proteção e força. Em seguida, a juventude Kadiwéu apresentou danças tradicionais que evocam resistência e identidade. O espaço se transformou em território sagrado e político ao mesmo tempo, onde tradição e organização caminham juntas.

Ao longo de cinco dias, 11 delegações da juventude Terena participaram do encontro, vindas de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul. A presença de jovens Kadiwéu, Kinikinau e Guarani e Kaiowá reforçou a importância da união entre os povos.

Cosmologia: o território como corpo vivo

A mesa sobre cosmologia ampliou o debate para além da política institucional. Lideranças e jovens refletiram sobre a relação profunda entre o povo Terena e os elementos naturais. O território foi descrito como corpo vivo, não apenas espaço físico, mas lugar de memória, espiritualidade e equilíbrio.

A água foi citada como fonte de vida e também como elemento sagrado. O sol e a lua, como guias do tempo e da organização comunitária. O ciclo das chuvas, das plantações e das colheitas apareceu como expressão concreta da conexão entre humanidade e natureza. Não se tratava apenas de discurso simbólico: os participantes enfatizaram que a cosmologia orienta decisões práticas, desde o plantio até a organização política.

Os mais velhos lembraram que a juventude precisa compreender essa dimensão espiritual para fortalecer sua atuação. Defender o território não é apenas reivindicar direitos fundiários, é proteger a base espiritual que sustenta a existência coletiva. Muitos jovens ouviram atentos, anotando, registrando, trocando olhares de concordância. A mesa deixou claro que identidade não se negocia: ela se vive.

Território, formação ambiental e protagonismo juvenil

O debate sobre território ganhou contornos técnicos e estratégicos. Jovens compartilharam experiências de atuação como Agentes Ambientais Terena, relatando atividades de monitoramento, proteção de nascentes, identificação de impactos ambientais e orientação comunitária sobre manejo sustentável.

Foi destacada a importância do curso de formação promovido pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI), que capacitou jovens para atuação qualificada na gestão territorial. A formação combinou conhecimento técnico com saber tradicional, fortalecendo a autonomia das comunidades.

Os relatos mostraram que a crise climática já impacta o cotidiano nas aldeias: períodos de calor intenso, mudanças no regime de chuvas e dificuldades na produção agrícola. A juventude demonstrou compreensão clara de que a proteção ambiental é tarefa coletiva e permanente. O território foi tratado como prioridade absoluta, pois dele depende a sobrevivência física e cultural do povo.

Saúde indígena e desafios estruturais

A mesa sobre saúde reuniu preocupações práticas e reivindicações urgentes. Foram discutidos temas como acesso a atendimento especializado, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e saúde mental da juventude.

Participantes apontaram que questões estruturais, como falta de água potável e infraestrutura adequada, impactam diretamente a saúde coletiva. Também foi ressaltada a importância da participação ativa da juventude nos conselhos de saúde e espaços de controle social, para que as demandas das aldeias sejam efetivamente consideradas. O diálogo evidenciou maturidade política e desejo de assumir responsabilidades institucionais.

Educação e permanência no ensino superior

A educação ocupou espaço central nos debates. Jovens universitários relataram desafios relacionados à permanência nas instituições federais: moradia, alimentação, transporte e apoio pedagógico foram citados como dificuldades recorrentes.

Ao mesmo tempo, foram destacadas conquistas importantes, como o acesso crescente ao ensino superior e a formação de profissionais indígenas comprometidos com suas comunidades. A defesa da educação escolar indígena diferenciada também foi reafirmada como instrumento de fortalecimento cultural.

A assembleia reforçou que estudar fora do território não significa romper com ele, mas retornar mais preparado para contribuir.

Fórum Regional e formulação de políticas públicas

O Fórum Regional da Juventude representou momento estratégico da programação. Divididos em eixos temáticos, Educação; Cultura, Esporte e Lazer; Diversidade e Participação Social; Território, Meio Ambiente e Sustentabilidade; e Saúde Mental, os jovens elaboraram propostas para subsidiar a construção do Plano Estadual da Juventude.

As discussões foram intensas e organizadas. Houve sistematização de demandas, definição de prioridades e construção coletiva de encaminhamentos. A juventude demonstrou capacidade de diálogo institucional sem abrir mão de sua identidade.

Cultura, organização e renovação

Entre debates e plenárias, a cultura permaneceu pulsando. Oficinas de cerâmica, cantos tradicionais e danças reafirmaram que a resistência também se expressa na celebração.

No encerramento, a reorganização da coordenação estadual da juventude Terena marcou novo ciclo de atuação. O momento foi conduzido com respeito e consenso, simbolizando continuidade e renovação.

Ao final da assembleia, quando as delegações começaram a se despedir, a sensação era de fortalecimento coletivo. A IX Assembleia da Juventude Terena consolidou-se como espaço estratégico de formação política, afirmação cultural e construção de futuro.

Os cantos que abriram o encontro permaneceram na memória, lembrando que, para a juventude Terena, território, espiritualidade e organização caminham lado a lado.