IV Assembleia das Mulheres Terena fortalece luta coletiva e amplia voz das mulheres em Nioaque (MS)

maio 6, 2026

Encontro reuniu mulheres de diferentes territórios do Mato Grosso do Sul para debater direitos, saúde, proteção e futuro.

Por Tiago Kirixi Munduruku/CTI

Ainda era cedo quando a aldeia Brejão, em Nioaque (MS), despertou com o som que vinha do chão. Antes da primeira fala oficial, antes da abertura da programação e antes mesmo de qualquer anúncio, foram as mulheres Terena que marcaram o início da IV Assembleia das Mulheres Terena.

Em roda, com passos firmes e cantos tradicionais, integrantes do grupo Hiokená Senó Hiko conduziram a cerimônia de abertura. O impacto dos pés no chão ecoava pelo espaço e chamava quem chegava. Cada batida parecia dizer que aquele encontro não seria apenas mais uma agenda anual, mas um momento de afirmação política, cultural e coletiva.

Ao redor da arena principal, mulheres de diferentes aldeias ocupavam seus lugares aos poucos. Algumas chegavam com crianças no colo, outras traziam cadernos para anotar os encaminhamentos. Jovens registravam as primeiras imagens no celular. As mais velhas observavam tudo em silêncio, como quem reconhece no presente a continuidade de uma longa caminhada.

Foi nesse ambiente que a coordenadora do Conselho de Mulheres Terena, Daniele Terena resumiu o sentimento do encontro. “Quando uma mulher Terena se levanta, ela não se levanta sozinha. Ela traz junto a força das que vieram antes e abre caminho para as que ainda vão nascer.”

Um território de escuta e decisão

Durante os dias de assembleia, a aldeia Brejão se transformou em um grande espaço de escuta, articulação e tomada de decisão. Mulheres Terena vindas de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul compartilharam experiências, apresentaram demandas e discutiram caminhos para fortalecer suas comunidades.

Havia professoras, agentes de saúde, lideranças locais, universitárias, artesãs, mães, avós e jovens iniciando participação nos espaços políticos. Em comum entre todas, a certeza de que era preciso sair dali com propostas concretas.

Entre uma mesa e outra, o movimento seguia intenso. Crianças circulavam entre as cadeiras, grupos conversavam debaixo das árvores, mulheres se reuniam para alinhar propostas e novas participantes continuavam chegando ao longo do dia.

A assembleia tinha ritmo próprio: o das falas no microfone e o das conversas que aconteciam nos intervalos, onde muitas decisões também começavam a ser costuradas.

Saúde da mulher dominou os debates

Um dos temas centrais do encontro foi a saúde da mulher indígena. O microfone passou de mão em mão e trouxe relatos sobre dificuldades no acesso a exames preventivos, falta de medicamentos, demora em atendimentos e necessidade de mais profissionais especializados nos territórios.

As participantes também cobraram ações permanentes de prevenção, maior presença das equipes nas aldeias e atendimento que considere a realidade das comunidades.

As falas vieram firmes, mas também carregadas de responsabilidade coletiva. Quando uma mulher relatava uma dificuldade, muitas outras se reconheciam naquela mesma situação. O debate mostrou que falar de saúde da mulher é falar de cuidado com toda a comunidade.

Protocolo de consulta sobre violência ganha força entre as participantes

Outro momento importante da programação foi a discussão sobre a construção de um protocolo de consulta relacionado ao enfrentamento da violência contra mulheres indígenas.

As participantes defenderam que qualquer política pública, ação institucional ou medida voltada ao tema precisa respeitar a escuta prévia das mulheres Terena, considerando cultura, organização social e formas próprias de proteção comunitária.

A proposta foi tratada como instrumento essencial para garantir que decisões externas não sejam impostas sem diálogo com quem vive a realidade nos territórios.

Durante o debate, as mulheres Terena reforçaram que combater a violência também exige ouvir as mulheres indígenas como protagonistas, e não apenas como destinatárias de ações prontas.

Documentário emocionou plenária

Um dos momentos mais marcantes da assembleia aconteceu durante a exibição de o documentário “Migração das Mulheres Terena: vivência, histórias e desafios”, apresentado às participantes.

As luzes diminuíram, o espaço silenciou e os olhos se voltaram para a tela. Imagens de trajetórias femininas, histórias de resistência e memória coletiva tomaram conta da plenária. Em vários momentos, o silêncio foi quebrado apenas por aplausos e reações emocionadas.

Mulheres se reconheceram nas cenas, nas falas e nos desafios retratados. Outras acompanharam com lágrimas discretas. O documentário se transformou em mais do que uma atividade cultural: virou espelho de vivências compartilhadas e registro da caminhada das mulheres indígenas. Ao fim da exibição, o clima era de emoção e orgulho.

PGTA e futuro dos territórios

A assembleia também abriu espaço para o debate sobre o PGTA, Plano de Gestão Territorial e Ambiental, apontado como ferramenta estratégica para organizar prioridades comunitárias e fortalecer a proteção dos territórios.

Mulheres defenderam participação ativa na construção desses planos, destacando que são elas que vivenciam diariamente o cuidado com a água, com as sementes, com a alimentação e com a organização comunitária.

Para as participantes, discutir PGTA é pensar no presente e nas próximas gerações ao mesmo tempo.

Mais mulheres nos espaços de decisão

A participação política feminina apareceu como pauta constante durante os dias de encontro. Lideranças cobraram maior presença de mulheres em conselhos, representações locais e instâncias de tomada de decisão.

O entendimento compartilhado era claro: não basta estar presente em cerimônias ou ser lembrada apenas em datas simbólicas. É preciso participar das decisões que impactam diretamente os territórios.

As jovens também ocuparam espaço de destaque, apresentando propostas, questionamentos e novas perspectivas para o movimento indígena.

A força que sustenta o encontro

Fora das mesas principais, a assembleia seguia acontecendo em muitos outros gestos. Mulheres acolhiam crianças, orientavam visitantes, ajudavam na organização dos espaços, acompanhavam anciãs e retornavam para os debates sempre que chamadas. Nada ficava parado por muito tempo.

Na aldeia Brejão, liderança aparecia tanto no microfone quanto nos detalhes do cuidado coletivo.

Documento final reúne encaminhamentos

Ao encerramento, os debates começaram a ser transformados em documento final da IV Assembleia das Mulheres Terena.

Entre os principais pontos defendidos estavam o fortalecimento da saúde indígena, mais políticas públicas para mulheres e juventude, participação feminina nos espaços de decisão, fortalecimento do PGTA, defesa dos territórios tradicionais e avanço na construção do protocolo de consulta sobre violência.

Mais do que uma lista de reivindicações, o documento representa compromissos assumidos coletivamente.

Quando elas se reúnem, algo muda

Quando os últimos momentos do encontro chegaram, o cansaço era visível. Mas também era visível a sensação de que ninguém sairia dali da mesma forma que entrou. A IV Assembleia das Mulheres Terena terminou como começou: com força coletiva.

Na poeira levantada pelos passos da abertura, nas falas firmes ao microfone, nas lágrimas durante o documentário e nos abraços de despedida, ficou a marca de um encontro que reafirmou o protagonismo feminino dentro do povo Terena.

Porque quando as mulheres se reúnem, não ocupam apenas um espaço. Elas reorganizam caminhos. Protegem a memória. Fortalecem o presente. E abrem passagem para o futuro.