Covid-19 avança no Vale do Javari e Univaja pede socorro

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) está pedindo socorro para autoridades responsáveis diante do avanço no número de casos da doença do novo coronavírus, Covid-19, que já atinge parte das aldeias da Terra Indígena (TI) Vale do Javari. Na TI vivem os povos Marubo, Mayoruna (Matsés), Matis, Kulina (Pano), Tüküna (Kanamary), Korubo e Tsohom-Djapá, os dois últimos povos de recente contato. Além destes, vivem no Vale do Javari o maior número de grupos de povos indígenas isolados em todo o mundo.

O pedido de socorro veio depois que foram confirmados pelo menos quatro casos entre profissionais de saúde e sete entre indígenas. Os números do governo federal conflitam com os da prefeitura de Atalaia do Norte (AM), que já fala em 12 casos confirmados entre indígenas na sua jurisdição.

Confira a nota completa:

NOTA À SOCIEDADE BRASILEIRA E A COMUNIDADE INTERNACIONAL SOBRE O AVANÇO DO COVID – 19 NA TERRA INDÍGENA VALE DO JAVARI

07 de junho de 2020,
Atalaia do Norte, Amazonas
Terra indígena Vale do Javari

POVOS DO JAVARI PEDEM SOCORRO!

A Coordenação da União dos povos Indígenas do Vale do Javari – UNIVAJA representante dos povos Mayoruna (Matses), Matis, Tüküna (Kanamary), Kulina (Pano), Korubo e Tsohom-Djapá, estes últimos dois de recente contato, preocupado com a proliferação da COVID-19 que assola parte das aldeias da Terra Indígena do Vale do Javari, vem pedir SOCORRO aos organismos governamentais e não governamentais. EXIGIMOS URGÊNCIA e PRONTA RESPOSTA para o atendimento da população indígena afetada pelo vírus.

No último dia 04 de junho o Ministério da Saúde emitiu uma nota confirmando casos positivos de COVID-19 em quatro profissionais não-indígena da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) na aldeia São Luis, localizadas na região do médio curso do rio Javari, que foram removidos no dia seguinte e subtituído por uma equipe de Resposta Rápida da SESAI. No dia 06 de junho o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) do Vale do Javari informou que existem três indígenas confirmados para a COVID-19. Sabemos que outros profissionais foram retirados contaminados pelo vírus e que isso não tem sido reportado com transparência. As lideranças nos comunicaram que mais 15 pessoas e cinco famílias na aldeia apresentam sintomalogia relacionada ao vírus. Vale destacar que na aldeia moram aproximadamente 244 pessoas e os teste disponíveis são apenas 60, sendo que estes serão divididos com outras aldeias que tem indígenas com suspeita. Ainda a aldeia São Luis sofre com um surto de malaria que está afetando a grande parte da dessa comunidade.

As autoridades encontram-se investigando a possível entrada do vírus na região, suspeita-se que seja através dos professionais da saúde ou funcionários do DSEI, como aconteceu com nossos parente da região do Solimões. Segundo os depoimentos das lideranças nas aldeias, parte da equipe de saúde visitou outras as aldeias da abrangência do Pólo Base Médio Javari, como o caso das aldeias Pedro Lopes e Nuntewa (povo Kulina Pano), Fruta Pão, Flores e Lago Grande (todas do povo Matses). O que significa que a contaminação pode se alastrar em todas as aldeias da região do médio Javari e médio Curuçá, totalizando dez. A maioria das lideranças altertam que tem indígenas apresentando sintomas de febre, dor de cabeça, dor no corpo, vomitos e falta de ar.

Cabe destacar que a região do médio Javari é divisa internacional com Peru, sendo uma área permanente frequentada por pescadores, madereiros e caçadores ilegais. A UNIVAJA tem alertado e informado de forma constante a FUNAI sobre a presença de invasores em toda a região. E tem pressionado as autoridades responsáveis para o fortalececimento da Base de Proteção do Curuçá ue fazem a vigilância e monitoramento dessa região. Destacamos sempre que nesta localidade há registro de grupos em isolamento voluntário, que frente a um eventual contato podem ser dizimados.

As lideranças das aldeias já tinha informado o DSEI Vale do Javari sob a negativa da rotatividade de equipes de saúde em nosso território. Mesmo assim e com o perigo iminente, adentraram teimosamente nossas aldeias. Embora a UNIVAJA tenha denunciado e alertado estsa situações, os ógãos oficiais esperaram acontecer o avanço do COVID-19 nas aldeias, para tomar as providências necessárias. Por uma parte, A FUNAI alegava falta de equipe e de recurso para a vigilancia e monitoramento do território e, a SESAI inssistia no isolamento dos profesionais na cidade, que evidentemente não foi eficaz. Cabe destacar aqui que a estrutura do DSEI Vale do Javari para remoção de pacientes das aldeias é completamente insuficiente para atender a dimensão desse caos sanitário que se instala em nossa terra.

Com o enfraquecimento e o descaso dos órgãos públicos motivado por uma política anti indígena do Governo atual, as ações relacionadas a vigilancia e saúde se tornam insuficientes para a complexidade do território. As epidemias em nosso território como o caso da malária, coqueluche e hepatites, levaram à óbitos vários indígenas por causa de uma lenta e ineficaz resposta das autoridades. Após uma longa história de dizimação, nós povos indígenas ressistimos e nossa população aumentou. Atualmente, corremos o risco novamente de ser reduzidos por uma doença dos não indígenas.

Externamos a nossa preocupação com todos os indígenas que vivem na Terra Indígena, principalmente com os indígenas de recente contato Toshom Dyapa (aldeia Jarinal, região do Jutaí), Korubo (aldeias dos rios Ituí e Coari), nosso parentes que vivem em isolamento voluntário e com os indígenas que vivem atualmente no município de Atalaia do Norte-AM. Nós do Movimento Indígena somos testemunha da luta na defesa dos direitos do povos indígenas por nossos mais velhos e hoje enfrentaremos este vírus e procuraremos todas os meios possiveis para evitar uma nova tragédia em nossas vidas.

Exigimos as autoridades responsaveís tomar providências como também apontamos possíveis alternativas para lidar com o  contexto. Será importante a colaboração dos parceiros e entidades comprometidas com a causa indígena, afim de que essa pandemia não se alastre em todo território indígena do Vale do Javari.

NÓS DO MOVIMENTO INDÍGENA EXIGIMOS:
1. As autoridades competentes INVESTIGUEM e ESCLAREÇAM como o vírus adentrou as aldeias dos médios rios Javari e Curuçá;
2. Que SESAI comunique de forma constante e seja transparente com as informações do lastramento do contágio e as ações de enfrentamento ao COVID-19 no Vale do Javari;
3. Que seja estabelecido IMEDIAMENTE e de FORMA EFETIVA um gabinete de crise local para enfrentamento à COVID-19  a FUNAI, SESAI e Movimento Indígena para coordenação das ações nesse momento de calamidade;
4. Que a SESAI Brasília providencie de forma IMEDIATA, medicamentos para o tratamento da COVID 19 e testes rápidos para todas as aldeias do Vale do Javari;
5. Que o GOVERNO FEDERAL providencie imediatamente um hospital de campanha em Atalaia do Norte-AM;
6. Que a SESAI Brasília e viabilize imediatamente “Ambulanchas”, devidamente equipadas, para atender as aldeias Irari, Lago do Tambaqui, Lago Grande, São Luis, Flores, Fruta-Pão e Lar Feliz, que possívelmente estão contamindas, e todo o Vale do Javari;
7. É URGENTE a ampliação e contratação da equipe de saúde completos: médicos, enfermeiros, técnicos, microscopista;
8. AGILIZAR a contratação de horas voos de helicóptero e aviões, preevendo que dentro dos próximos dias teremos casos urgentes de remoção de indígenas;
9. Instalação de barreiras sanitárias e locais de quarentena nos pontos de vulnerabilidade, sendo previamente discutida com o Movimento Indígena;
10. Fortalecimento das Bases de Proteção da FUNAI com equipamentos, pessoal, insumos necessários e forças de segurança (Exército, PF, PM Ambiental e Força Nacional) para a realização da vigilancia, fiscalização e monitoramento do território;
11. Que a Coordenação Regional do Vale do Javari (CRVJ) da FUNAI e o DSEI/VJ informem ao Movimento Indígena por escrito sobre as providências adotadas para a proteção do território e prevenção da COVID-19 na aldeia Jarinal, no rio Jutaí, onde residem os Kanamari e Tsohom Djapa, região de intensa movimentação de garimpeiros;
12. Que a CRVJ e o DSEI Vale do Javari informem ao Movimento Indígena por escrito sobre as providencias adotadas para a proteção do território e prevenção da COVID-19 na região do rio Jaquirana;
13. Que o GOVERNO BRASILEIRO se articule e viabilize ações com o GOVERNO PERUANO a fim de evitar a proliferação da COVID-19 na região de fronteira promovendo uma ação transfronteriça, sempre envolvendo o Movimento Indígena de ambas localidades;
14. Que o Comitê Municipal de Enfrentamento ao COVID-19 incorpore indígenas que possam fiscalizar as ações da Prefeitura em Atalaia do Norte, visto que frente uma possível remoção de indígena do Javari o município será o primeiro lugar de atendimento.

Lutaremos por nossa sobrevivência, mostraremos que por mais que tentem, não nos apagarão da história nem nos conquitarão nossa terra e nossa alma.

A Coordenaçõa da UNIVAJA

 

Artigo Seguinte