O Segundo Módulo da formação de Agentes Ambientais uniu tecnologia não indígena ao conhecimento tradicional e às práticas de manejo dos Guarani
Danielle Feltrin, com colaboração de Laura Pappalardo
Para integrar os saberes tradicionais guarani a tecnologias não indígenas na proteção da biodiversidade, a Terra Indígena (TI) Kuaray Haxa, em Antonina (PR), sediou o Segundo Módulo Geral de Formação de Agentes Ambientais. O encontro reuniu lideranças, jovens e anciãos de diversas Terras Indígenas do Litoral do Paraná e do Vale do Ribeira. O objetivo foi fortalecer o monitoramento da fauna nesses territórios.
Realizada entre os dias 23 e 25 de setembro, a atividade começou com a partilha de experiências de monitoramento territorial, em que os agentes ambientais indígenas apresentaram seus mapas e trabalhos realizados em cada Terra Indígena, compartilhando suas experiências bem como identificando pontos de interesse e ameaças locais. A atividade colocou em evidência as pressões enfrentadas pelas aldeias, como a extração predatória de palmito-juçara, caça ilegal, mineração e desmatamento.
A presença e a circulação permanente das famílias guarani pelos limites territoriais foram ressaltadas como o principal fator de regeneração ambiental. Relatos de lideranças locais apontam que áreas anteriormente degradadas voltaram a florescer após a consolidação da aldeia, permitindo a recomposição da vegetação nativa e o repovoamento de espécies antes ausentes da região.
Lorivan Gabriel Fernandes, da TI Kuaray Haxa, explica que o manejo e o monitoramento tradicionais, herdados de pais e avós, ganham agora o reforço de imagens que comprovam a eficácia do cuidado com o território.
“A gente já monitorava desde que chegamos aqui, mas não tinha como fazer esse registro. A gente via o rastro do bicho, e eu sempre fiz esse acompanhamento com o meu pai, nas caminhadas no entorno do território. Quando chegamos aqui, o ambiente estava muito degradado. Não víamos nenhum rastro. Depois da nossa presença, começamos a notar o aumento da presença dos animais.”
O cacique Rivelino de Castro vê no retorno da fauna o resultado direto desse cuidado. Ele conta que a floresta se recuperou aos poucos.
“Hoje, depois que entramos, [o palmito] começou a crescer e já está dando fruto. Então os pássaros estão voltando: tucano, jacu, macuco, que não havia mais e hoje apita em toda parte. Quando entramos, o porco-do-mato estava quase extinto. Agora voltou, e a gente o pegou bastante nas câmeras. Foi gratificante para nós, é resultado dos nossos cuidados com as florestas.”
Tecnologias tradicionais e não indígenas
A formação combinou teoria e oficinas práticas de configuração e instalação de câmeras de armadilha fotográfica (câmeras-trap). Acompanhados pelos mais velhos, os agentes ambientais caminharam pela mata para posicionar os equipamentos nos pontos estratégicos indicados pela comunidade.
Nesse sentido, as câmeras foram compreendidas como ferramentas complementares ao conhecimento tradicional. Elas registram a movimentação da fauna e geram provas materiais contra ilícitos ambientais, ao mesmo tempo em que a leitura dos ciclos naturais permanece como a base viva do monitoramento guarani.
“Acredito que essas câmeras, essa maneira nova de monitorar, só vão somar ao que aprendemos com os nossos anciãos. O monitoramento deles é totalmente diferente: era feito por meio dos ciclos da Lua. É muito importante juntar essas duas tecnologias, a de hoje e a dos nossos antepassados. No fim das contas, o monitoramento guarani sempre existiu.”

A vivência em campo deu aos participantes autonomia para replicar a metodologia em suas aldeias de origem. A presença de representantes de outras comunidades mostrou o interesse coletivo em estruturar novas formas de monitoramento e registrar a biodiversidade de seus territórios.
Stephanie Rose Branco, da TI Guyra Pepo, relata a importância da formação, conhecer o trabalho de perto e já planeja compartilhar os aprendizados com sua comunidade.

“Na minha aldeia, ainda não fazemos monitoramento pela mata. Agora eles estão planejando fazer uma caminhada em torno do território. Dizem que querem encontrar algum bicho diferente, como onça, preguiça e tatu.”
Os espíritos da mata e a cosmologia da caça

Um dos momentos de maior conexão do encontro foi a exibição do documentário “Guairaka’i ja – O dono da lontra”. O filme abriu espaço para que anciãos e anciãs conversassem com os jovens sobre as regras tradicionais de caça e o respeito sagrado aos animais.
Para os Guarani, a floresta é um espaço habitado por seres espirituais, donos de cada espécie. As falas após a exibição trouxeram à tona narrativas sobre as consequências de desrespeitar animais sagrados, reforçando a necessidade da mediação dos líderes espirituais nas Casas de Reza (Opy) para manter o equilíbrio e a proteção das comunidades.
Alice Euzébio Carvalho, da aldeia Peguao-ty (Sete Barras, SP), destacou o valor da escuta dos mais velhos:
“O que eu mais gostei foi poder ouvir as histórias dos xeramõi (anciãos). E a história da lontra, que vi no vídeo (…). Todos sabem que é errado matar animais sagrados. Temos que respeitá-los.”
Rivelino de Castro detalhou o episódio retratado no documentário:
“Na cultura guarani, se você mexer, tocar ou perturbar esse animal, o retorno é muito negativo para nós. Se você matar aquele bichinho, há uma troca de vida: o dono do animalzinho leva a vida das pessoas. Um jovem [que aparece no vídeo] não sabia disso, viu uma trilha e colocou uma armadilha, e pegou. Aí os mais velhos fizeram um longo ritual, pedindo desculpa e perdão ao dono do animal, para que nada acontecesse com a família desse jovem”, relata o cacique.
A etapa prática incluiu uma caminhada pela mata para instalar as armadilhas fotográficas. A vivência capacitou jovens indígenas a usar a ferramenta com autonomia, o que deve permitir que o aprendizado seja replicado nas aldeias e fortaleça a vigilância da fauna. A atividade também promoveu um importante intercâmbio entre gerações e despertou o interesse de outras aldeias em implementar o monitoramento em seus territórios.
A atividade integra o projeto Território e Saúde: olhares e estratégias Guarani e Timbira, realizado pelo CTI em parceria com a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), com apoio do Fundo Amazônia/BNDES.







