Por Tiago Kirixi Munduruku
Caminhar pelos territórios ao lado dos mais velhos fez Cerizi Francelino perceber que ser agente ambiental Terena envolve muito mais do que aprender a usar ferramentas de mapeamento. Morador da aldeia Bananal, na Terra Indígena Taunay-Ipegue, ele percorreu outros territórios durante as expedições da formação e encontrou, em cada caminho, histórias de luta, lugares sagrados e conhecimentos guardados pelos anciãos.
Na Terra Indígena Buriti, enquanto acompanhava os mais velhos por áreas retomadas e locais que marcam a história do povo Terena, Cerizi entendeu que conhecer o passado também significa assumir uma responsabilidade com o futuro.
“Tivemos a oportunidade de nos aprofundar nas nossas histórias. Se nossos mais velhos lutaram, temos a obrigação de continuar a caminhada do nosso povo”, conta Cerizi.

Cerizi foi um dos jovens que participaram do Segundo Ciclo do Projeto Koyónoti Vemeuxá: formando agentes ambientais Terena, realizado pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI) em parceria com o Conselho do Povo Terena, com o apoio do Fundo Ecos. Entre julho de 2025 e julho de 2026, a formação reuniu jovens de diferentes territórios em um percurso que começou com discussões sobre direitos indígenas, história e gestão territorial, seguiu por expedições de etnomapeamento e chegou ao aprendizado de técnicas de pesquisa e à formatura dos novos agentes ambientais.
Ao longo desse caminho, os jovens não estiveram sozinhos. Lideranças e anciãos acompanharam diferentes momentos da formação, compartilhando memórias sobre os territórios e as lutas do povo Terena. O conhecimento dos mais velhos se encontrou com mapas, GPS e outras formas de registrar informações, aproximando gerações em torno de uma mesma tarefa: conhecer o território para poder cuidar dele.
Antes de mapear, conhecer a própria história
O primeiro passo dessa formação aconteceu em julho de 2025, na Aldeia Bananal, na Terra Indígena Taunay-Ipegue. Durante quatro dias, 27 participantes se reuniram para discutir direitos indígenas, legislação, gestão territorial e os desafios ambientais enfrentados pelas comunidades.
Mas parte importante do aprendizado veio das próprias histórias Terena. Ao lado de anciãos e lideranças, os jovens construíram uma linha do tempo do território Taunay-Ipegue, recuperando acontecimentos de mais de um século: a presença do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a criação de aldeias e escolas, períodos de controle sobre as comunidades e as retomadas realizadas nas últimas décadas.






Ao olhar para o presente, os participantes também identificaram problemas que já transformam os lugares onde vivem. O avanço das lavouras de soja e dos agrotóxicos, as queimadas, a falta de água, o assoreamento dos córregos, a perda de árvores nativas e os conflitos com fazendeiros apareceram entre as principais preocupações.
Era uma preparação para o que viria depois. Nos meses seguintes, os jovens deixariam a sala de aula para percorrer Buriti, Taunay-Ipegue e Cachoeirinha e observar de perto aquilo que haviam começado a discutir no primeiro módulo.
O território como lugar de aprendizado
Quando as expedições começaram, o território passou a ser também uma sala de aula. Entre outubro de 2025 e abril de 2026, os agentes participaram de seis expedições de mapeamento pelas Terras Indígenas Buriti, Taunay-Ipegue e Cachoeirinha. Nos caminhos, registraram referências culturais e ambientais, visitaram áreas de retomada e ouviram dos mais velhos, histórias ligadas aos lugares por onde passavam.
Em Buriti, os jovens percorreram pontos históricos do território, áreas homologadas, retomadas e locais sagrados. Caminhar ao lado dos anciãos fez com que histórias de luta que atravessam gerações ganhassem outra dimensão. Foi também ali que os agentes chegaram à aldeia 10 de Maio, estabelecida em uma área de retomada, onde Oziel Gabriel foi morto durante uma ação policial, em 2013. Hoje, famílias cultivam mandioca, milho e hortas na área. “É um lugar de luto, mas também de esperança”, conta o agente Yon Alcântara.
A passagem por Buriti também permitiu que jovens de outros territórios conhecessem uma realidade diferente da sua. Gustavo Terena vive na Aldeinha, em Anastácio, em um território de uma quadra inserido no contexto urbano. Ao percorrer Buriti, ele se surpreendeu com a dimensão do território e com as histórias que ouviu durante o caminho. “Comparando com minha aldeia, percebi como o território aqui é amplo e cheio de histórias”, conta. Durante a expedição, os agentes também registraram espécies como cumbaru, jatobá e babaçu e ouviram relatos sobre conflitos fundiários e expulsões vividas pelos mais velhos.






Em Taunay-Ipegue, o percurso levou os agentes a outros capítulos da história Terena. O grupo passou pela retomada Maria do Carmo, Ipanema e Capão das Araras e conheceu experiências de prevenção e combate aos incêndios junto à brigada indígena. Para Carla Mayara, ouvir os anciãos durante essas visitas foi uma das partes mais importantes da experiência. “Foi tocante ouvir sobre a luta, os remédios tradicionais, a caça e a pesca. É uma conquista que fortalece a juventude.”
“Foi tocante ouvir sobre a luta, os remédios tradicionais, a caça e a pesca. É uma conquista que fortalece a juventude”, afirmou Carla.
Já em Cachoeirinha, as mudanças na paisagem chamaram a atenção dos participantes. Lugares conhecidos pelos mais velhos como espaços de pesca e lazer hoje apresentam sinais de degradação. No córrego Agachi, os agentes encontraram o leito completamente seco. As memórias dos anciãos ajudaram os jovens a compreender o tamanho da transformação ocorrida naquele lugar.
Para Cerizi, situações como essa também mostraram que conhecer os problemas é apenas parte do trabalho. “Enquanto agentes ambientais, temos a missão de criar estratégias de revitalização e proteção”, afirma. Ao longo das expedições, observar, ouvir e registrar passaram a fazer parte de um mesmo aprendizado: entender como cada território mudou e reunir informações que possam ajudar a pensar seu futuro.
Dos caminhos para os mapas
Depois de meses percorrendo os territórios, era hora de voltar às informações reunidas em campo. Em maio de 2026, cerca de 20 agentes se encontraram na Aldeia Cachoeirinha para a etapa de qualificação dos dados georreferenciados produzidos durante as seis expedições.



Os lugares visitados, as histórias contadas pelos anciãos e as referências ambientais identificadas durante os percursos começaram, então, a ganhar espaço nos mapas. O trabalho com esses dados também passou a dialogar com a construção dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs), instrumentos utilizados pelos próprios povos para planejar o cuidado e a gestão de seus territórios.
Pesquisar o passado para compreender o presente
Na etapa final da formação, os agentes voltaram a olhar para os territórios por outros caminhos. Entre os dias 13 e 15 de julho de 2026, cerca de 25 jovens de Buriti, Cachoeirinha, Taunay-Ipegue, Lalima e Tereré participaram do terceiro módulo, dedicado às técnicas de pesquisa e às formas de produzir e registrar conhecimentos sobre os territórios.
Parte desse aprendizado aconteceu novamente ao lado dos mais velhos. Sete anciãos participaram das atividades e compartilharam histórias sobre as comunidades, as lutas pela terra e as mudanças percebidas ao longo do tempo. Para os jovens, pesquisar também significava aprender a buscar essas memórias e relacioná-las com documentos, mapas e outras fontes de informação.
Na Terra Indígena Lalima, essa troca ganhou o rio Miranda. Agentes e anciãos embarcaram juntos e percorreram diferentes trechos do rio, acompanhados pela brigada indígena. Durante o caminho, conversaram sobre os limites do território e as transformações ambientais da região, enquanto os mais velhos compartilhavam conhecimentos e lembranças ligadas aos lugares visitados.



De volta a Cachoeirinha, documentos históricos abriram outra possibilidade de conhecer o passado. Registros das décadas de 1940, 1950 e 1960 despertaram especialmente a atenção dos anciãos. Neles apareciam informações sobre viagens, mudanças de lideranças, trocas comerciais, problemas de saúde e situações do cotidiano das comunidades Terena naquele período.
O último módulo também foi o momento de reunir parte do que havia sido construído durante aquele ano. Os agentes trabalharam coletivamente no livro “Trieiros para o Futuro”, produzido a partir das experiências vividas nas expedições de etnomapeamento, e analisaram mapas sobre o histórico de incêndios próximos aos territórios indígenas.
De alunos a agentes ambientais Terena
Depois de um ano entre aulas, caminhadas, mapas, histórias e expedições, chegou o momento de encerrar a formação. No dia 15 de julho, familiares, anciãos e lideranças se reuniram em Cachoeirinha para acompanhar a formatura dos novos agentes ambientais Terena.
Durante a cerimônia, os próprios agentes falaram sobre as mudanças vividas ao longo do processo e sobre como passaram a compreender melhor a história, a cultura e os territórios de suas comunidades. Os anciãos também retomaram momentos das expedições e falaram sobre a importância de transmitir aos jovens aquilo que aprenderam ao longo da vida.
A entrega dos certificados marcou o fim de um ciclo iniciado um ano antes. Mas aquilo que foi construído durante a formação não ficou nas salas de aula, nos mapas ou nos caminhos percorridos. Voltou com cada jovem para sua comunidade, junto das histórias ouvidas durante as expedições, das lembranças compartilhadas pelos anciãos e de uma responsabilidade que atravessa gerações: continuar cuidando dos territórios que seus antepassados lutaram para proteger.






E a imagem da “semente” usada por Cerizi durante as expedições ajuda a resumir esse percurso.
“Cada momento como esse é como plantar uma semente. Os frutos virão no futuro”, resumiu o agente.
São frutos que carregam as histórias contadas pelos mais velhos, os caminhos percorridos durante a formação e a esperança de que uma nova geração continue cuidando dos territórios e levando adiante os conhecimentos do povo Terena.
A formação continua
O ciclo de formação chegou ao fim, mas os caminhos construídos pelos agentes ainda terão novos encontros. Em fevereiro de 2027, durante a Assembleia da Juventude Terena, serão lançados o livro “Trieiros para o Futuro” e o filme que registra experiências vividas pelos agentes ao longo da formação.

