Projeto Território e Saúde Guarani e Timbira contribui com ações de cuidado, acesso à água e proteção territorial em seu primeiro ano

ago 24, 2026

Em seu primeiro ano de execução, o projeto “Território e Saúde: olhares e estratégias Guarani e Timbira” desenvolveu um conjunto de ações voltadas ao fortalecimento da saúde indígena, da proteção territorial e das estratégias comunitárias de adaptação climática em territórios Timbira, no Maranhão e Tocantins situados na Amazônia Legal, e Guarani, nas regiões do Vale do Ribeira - SP e Litoral do Paraná.

Iniciativa parte de conhecimentos e estratégias indígenas para articular saúde indígena e cuidado com os territórios diante dos desafios climáticos e ambientais

Fernando Ralfer e Danielle Feltrin/CTI

Em seu primeiro ano de execução, o projeto “Território e Saúde: olhares e estratégias Guarani e Timbira” desenvolveu um conjunto de ações voltadas ao fortalecimento da saúde indígena, da proteção territorial e das estratégias comunitárias de adaptação climática em territórios Timbira, no Maranhão e Tocantins situados na Amazônia Legal, e Guarani, nas regiões do Vale do Ribeira – SP e Litoral do Paraná.

Realizada pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI), a iniciativa atua em um contexto de crescente pressão sobre os territórios indígenas. Desmatamento, expansão agropecuária, grandes empreendimentos e eventos climáticos extremos afetam os ecossistemas e a disponibilidade de recursos naturais. 

Essas pressões têm impactos diretos sobre os modos de vida, a alimentação, a saúde e a organização comunitária dos povos indígenas. Elaborado em parceria com a Associação Wyty Catë das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins e com a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), o projeto parte de demandas construídas nos territórios.

Entre os Timbira, a iniciativa articula formas próprias de cuidado e medicina indígena com  o fortalecimento da rede ampliada de atenção primária  à saúde, medicina indígena, educação comunitária em saúde, segurança alimentar, acesso à água, adaptação climática e fortalecimento das instâncias tradicionais de governança.

Entre os Guarani, ela fortalece modos de vida, práticas e  estratégias de gestão e proteção territorial e ambiental que combinam tecnologias de monitoramento com saberes e práticas tradicionais de cuidado com o território.

Saúde, formas próprias de cuidado, mudanças climáticas e fortalecimento da atenção primária 

Diante desse cenário, o projeto parte de uma compreensão integrada de saúde. 

Para os Timbira, cuidar da saúde envolve proteger o território, garantir uma alimentação saudável, utilizar plantas e outros remédios do mato. Também inclui  cumprir os resguardos e os cuidados com o corpo e valorizar a atuação de parteiras, pajés e demais especialistas indígenas.

Práticas culturais e conhecimentos transmitidos entre gerações também fazem parte desse cuidado. Cantos, pinturas e corridas de tora, por exemplo, integram uma compreensão da saúde relacionada ao corpo, ao território, à cultura e  à vida comunitária  É a partir dessa compreensão integrada que o projeto articula formas próprias de cuidado e medicina indígena com outras estratégias de atenção à saúde. 

No primeiro ciclo de atividades, foram desenvolvidas ações de  apoio à atenção primária nas aldeias, valorização da medicina indígena, saúde da mulher e enfrentamento aos processos de alcoolização. As atividades também envolveram prevenção e cuidado de doenças crônicas, perfuração de poços para acesso à água potável  e planejamento de estratégias de proteção territorial.

Uma das primeiras frentes de trabalho  do  projeto foi o apoio à rede de atenção primária à saúde Timbira. Em articulação com os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) do Maranhão e do Tocantins, a iniciativa vem apoiando  cinco Polos Base. São eles: Barra do Corda e Amarante, no Maranhão; e Tocantinópolis, Goiatins e Itacajá, no Tocantins. O apoio também alcança Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSIs) vinculadas a esses territórios.

A ação incluiu a doação de equipamentos e insumos destinados à rotina da equipe multidisciplinar de saúde indígena (EMSI). Entre os materiais apoiados estão aparelhos de pressão, termômetros, oxímetros, glicosímetros, otoscópios, balanças, kits de sutura, curativo e extração de pontos, macas, cadeiras de rodas, além de outros itens voltados à estruturação das unidades.

Edivaldo Moreira Gavião, cacique  da Aldeia Governador, na TI Governador (MA), e membro da diretoria da Associação Wyty Catë, destaca que a chegada dos equipamentos e insumos respondeu a uma demanda apresentada pela própria comunidade e tem fortalecido o trabalho das equipes de saúde indígena no território. “Esse projeto foi uma demanda do nosso povo. Ele surgiu porque a gente não tinha, na área da saúde, equipamentos e insumos necessários, principalmente materiais de atendimento para os agentes de saúde, para a enfermagem e para toda a equipe básica. Quando a gente levou esse material para as equipes, todos ficaram muito felizes […] E agora os equipamentos estão sendo bem utilizados”.

A agenda de saúde também incluiu ações de prevenção e cuidado voltadas às mulheres. Na aldeia Escalvado, na Terra Indígena (TI) Kanela, o projeto apoiou a Campanha de Saúde da Mulher, vinculada ao Outubro Rosa, com foco na prevenção do câncer de mama e do colo do útero. 

No mesmo período, o I Encontro Formativo sobre Saúde da Mulher Timbira reuniu mulheres indígenas Krahô e Apinajé, especialistas da medicina timbira e representantes de instituições parceiras no Centro Timbira de Ensino e Pesquisa Pënxwyj Hëmpejxà, em Carolina (MA).

Feira de plantas e sementes realizada pelas mulheres durante o encontro
Corrida de tora das mulheres no último dia do encontro

O encontro fortaleceu o diálogo intercultural entre diferentes conhecimentos e práticas de cuidado. Foram abordados temas como saúde, medicina timbira, cuidado, proteção das mulheres, direitos e políticas públicas. 

As participantes também discutiram os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde e a alimentação nas aldeias, além de temas como violências, doenças crônicas, sofrimento mental e a importância da valorização dos cuidados tradicionais.


“Esse encontro foi importante porque, nos últimos anos, nós, indígenas, temos recorrido muito aos remédios de farmácia. Ao mesmo tempo, temos muitos conhecimentos dentro das aldeias, com os mais velhos, que acabam ficando de lado, mesmo tendo o remédio ali, na porta. […] Precisamos retomar isso, voltar a usar nossos próprios remédios. Então discutimos como preservar esses saberes, como cuidar da saúde da mulher, como a gente se cuida e também quais são os problemas que estamos enfrentando hoje, seja na política, na educação ou em outras instâncias”, explica a professora Letícia Jôkahkwyj Krahô, moradora da Aldeia Sol, TI Kraolândia (TO) e membro da diretoria da Associação Wyty Catë.

Medicina indígena, saúde mental e cuidado comunitário

A valorização das formas próprias de cuidado e dos conhecimentos tradicionais atravessou as ações de saúde desenvolvidas no primeiro ano.

Na aldeia Nova, na TI Kraolândia, uma oficina intergeracional reuniu mulheres anciãs e jovens Krahô e Apinajé para a troca de saberes sobre práticas preventivas e curativas da medicina Timbira. Durante a atividade, foram abordadas formas de identificação, coleta, preparo e uso de remédios do mato, práticas de cura e técnicas tradicionais de prevenção de doenças. A oficina também tratou de conhecimentos sobre o corpo, o território e as relações espirituais que estruturam a saúde timbira. 

Oficina Intergeracional Kraolândia

Além da troca de conhecimentos, promoveu reencontros familiares, retomada de memórias e fortalecimento de vínculos históricos entre os povos Krahô e Apinajé.

Ainda nesse eixo, o projeto iniciou o mapeamento de cantadores de maracá, cantadoras e aprendizes nas TIs Governador e Krikati. A atividade, realizada por meio de diálogos nas casas dos cantadores e de suas famílias, buscou levantar informações sobre idade, etnia, aldeia de residência e formas de contato, além de reunir elementos sobre a relação entre os cantos e a saúde Timbira. Ao todo, foram identificados 29 participantes. A iniciativa prepara futuras ações intergeracionais diante da redução do número de cantadores nas aldeias e da dificuldade de formação de jovens nessa prática. O canto é reconhecido, nesse contexto, como uma dimensão fundamental do cuidado, da memória e do fortalecimento do corpo e da mente.

Outra frente importante foi iniciada na TI Porquinhos, do povo Apãnjekrá-Canela, com diálogos orientadores sobre processos de alcoolização e saúde mental. A abordagem envolveu lideranças, profissionais de saúde, professores indígenas e a comunidade. O objetivo é  compreender o uso abusivo de álcool a partir de suas dimensões históricas, sociais, territoriais e culturais.

Mulheres em atividade durante o mapeamento comunitário sobre uso abusivo de álcool

A proposta construída no território prevê ações como mapeamento comunitário sobre o uso abusivo de álcool, elaboração de plano de enfrentamento, oficinas com professores indígenas e equipes multidisciplinares de saúde indígena, além de atendimentos coletivos e individuais. 

A intenção é fortalecer estratégias comunitárias de cuidado, prevenção e redução de danos, evitando abordagens moralizantes ou desconectadas da realidade local.

Nas TIs Governador e Krikati, o projeto também realizou diálogos orientadores sobre doenças com altos índices de incidência, com foco em pacientes diagnosticados com diabetes e hipertensão arterial sistêmica. 

As ações buscaram construir planos terapêuticos singulares adaptados às condições sociais, familiares e territoriais dos pacientes, considerando suas redes de apoio, alimentação, adesão ao tratamento e práticas tradicionais de cuidado.

Entre os Apinajé, brigadistas indígenas participaram ainda de uma atividade de primeiros socorros adaptada ao contexto de mata. Foram abordadas situações como insolação, queimaduras, fraturas, picadas de cobra e abelhas, engasgo, afogamento e parada cardiorrespiratória, considerando os riscos enfrentados durante ações de manejo integrado do fogo e controle de queimadas.

Água, alimentação e adaptação  às mudanças climáticas 

As estratégias de cuidado também passam pelas condições que sustentam a vida nos territórios. Por isso, as ações de saúde foram acompanhadas por iniciativas voltadas ao acesso à água, à alimentação e à adaptação às mudanças climáticas..

Entre os Timbira, o projeto apoiou práticas agroecológicas em quintais produtivos, roças e áreas de cultivo tradicional, reconhecendo a segurança alimentar como parte fundamental do cuidado com a saúde.

Na TI Kanela, do povo Kanela Memortumré, foi iniciado o planejamento de  uma experiência-piloto de irrigação em uma área de cultivo de laranjeiras. A escolha da laranja está relacionada à importância da fruta no calendário ritual Memortumré, especialmente na festa Rãm Rãm, conduzida pelas mulheres. A iniciativa articula produção de alimentos, manejo hídrico, fortalecimento cultural e adaptação às mudanças climáticas.

Experiência-piloto de irrigação em uma área de cultivo de laranjeiras

Já na TI Governador, do povo Gavião Pyhcop Catiji, o projeto apoiou o manejo de 26 quintais produtivos com espécies frutíferas, como laranja, tangerina, limão e coco. 

Também foram apoiadas nove áreas de roça de arroz nas aldeias Governador, Passagem Grande, Bom Jardim e Aldeia Nova. As ações fortaleceram práticas comunitárias de cultivo, ampliaram a produção de alimentos e contribuíram para a autonomia das famílias.

O acesso à água foi outro eixo central. No primeiro ciclo, foram perfurados dois poços artesianos: um na aldeia Mangueira, na Reserva Indígena Krenyê, e outro na aldeia Canto Bom, na TI Governador.

As perfurações ampliaram o abastecimento de água e fortaleceram a infraestrutura comunitária em aldeias que enfrentavam dificuldades relacionadas à escassez hídrica.

Para Divino Timbira, a vida na Aldeia Mangueira, na Reserva Indígena Krenyê (MA), mudou bastante após a chegada do poço. “Antes da gente ter um poço perfurado dentro da aldeia Mangueira Mãe, a gente vivia, como meus parentes diziam, em situação de calamidade. A água que chegava precisava ser toda regrada, porque, se não fosse assim, faltava até para tomar banho e para as nossas necessidades. Depois que o poço chegou, a vida no cotidiano melhorou muito. Hoje a gente não tem mais aquela preocupação constante com a água, porque o poço dentro da aldeia se fortaleceu e vem fortalecendo a nossa base”.

Modos de vida guarani e proteção da Mata Atlântica 

Na Mata Atlântica, o primeiro ano fortaleceu estratégias guarani de gestão, proteção e recuperação territorial e ambiental, especialmente nas regiões do Vale do Ribeira e do litoral do Paraná. 

A iniciativa colaborou com a articulação de lideranças, auxiliou na mobilização da continuidade dos processos de regularização fundiária, fortaleceu a segurança alimentar e as práticas culturais das comunidades. Elaborado em conjunto com a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), organização representativa dos povos Guarani do Sul e do Sudeste, o projeto tem a estimativa de beneficiar 35 aldeias em 20 Terras Indígenas. 

A partir de processos de escuta e planejamento, foram definidas iniciativas de proteção ambiental e territorial relacionadas às demandas de cada área. As ações  envolveram apoio a roçados tradicionais, reforma e estruturação de casas de reza (opy), realização de rituais, intercâmbios de sementes, fortalecimento de áreas de ocupação. Também apoiaram a circulação de conhecimentos entre aldeias. Essas iniciativas combinam práticas tradicionais de cuidado com o território com ferramentas e estratégias não indígenas de monitoramento e proteção ambiental.

O projeto também apoiou a distribuição de ferramentas e espécies de sementes agrícolas, como milho, feijão, arroz e amendoim, além de variedades de ramas de mandioca e de batata-doce. O apoio aos plantios tradicionais contribui para a segurança alimentar, a autonomia das comunidades e sua permanência nos territórios. 

A proteção territorial também passa pela tecnologia. No primeiro ano, foi realizada a fase de melhorias da plataforma Mapa Guarani Digital, com a atualização da infraestrutura tecnológica e correção das falhas operacionais. Para o próximo período, estão previstas reuniões de planejamento e definição do escopo que agregará melhorias e novas funcionalidades a serem implementadas.

Formação, conhecimento e fortalecimento político 

Este eixo do projeto consolidou uma série de atividades voltadas ao fortalecimento político, social e cultural dos povos Guarani para a proteção de seus territórios e da Mata Atlântica. Um dos marcos deste primeiro ciclo foi a intensa agenda de incidência política. 

O projeto fomentou reuniões estratégicas junto ao Ministério da Justiça e à FUNAI. As articulações contribuíram para a publicação das portarias declaratórias das Terras Indígenas (TIs) Ka’aguy Mirim, Pakurity e Ka’aguy Hovy, no Vale do Ribeira, e da TI Sambaqui no litoral do Paraná. Além disso, foram realizados encontros internos, como o Encontro de Jovens Guarani, que reforçou a transmissão de saberes dos anciãos e a continuidade do modo de ser Guarani, o Nhandereko. 

Os encontros formativos político-jurídicos também foram destaque. Lideranças, mulheres e jovens Guarani de diferentes aldeias do Vale do Ribeira participaram da primeira Formação Política sobre demarcações de Terras Indígenas, realizada na Reserva Indígena Taquari, em Eldorado-SP. A atividade provocou debates sobre a estrutura político-jurídica do Estado brasileiro, as leis que garantem direitos territoriais, o sistema eleitoral e estratégias para avançar nas demarcações e proteger os territórios. 

Formação Política reúne lideranças, jovens e anciãos no Vale do Ribeira e Litoral do Paraná

“Essa formação é importante para a nossa comunidade, principalmente para a juventude Guarani, de entender os processos de demarcação territorial, da política dos jurua (não-indígenas). Esse conhecimento nos fortalece e nos dá mais repertório para articular nossas demandas entre os Três Poderes”, relata Marciano Boggarim, coordenador regional da CGY no Vale do Ribeira.

No âmbito do projeto também foi iniciada uma Formação de Pesquisadores Guarani, reunindo um grupo de 12 participantes das Terras Indígenas do Vale do Ribeira e do Litoral do Paraná. No primeiro módulo, a oficina trabalhou o conceito de pesquisa como instrumento de aprendizado, explorando as formas guarani de transmissão de conhecimento.

Grupo de pesquisadores se reúnem para ouvir anciãos na Ilha do Cardoso, em Cananeia-SP

Os participantes também começaram a conceber as pesquisas que serão desenvolvidas ao longo do projeto. Dessa forma, os pesquisadores indígenas começaram a se preparar para conduzir investigações que valorizem os saberes tradicionais e fortaleçam o diálogo intercultural sobre a Mata Atlântica.

“Com essa formação de pesquisa, os jovens poderão registrar tudo aquilo que é importante da nossa cultura e repassar isso para as futuras gerações e para a sociedade”, avalia o Abílio da Silva Martins, professor indígena e participante da formação. Para ele, pesquisar é instrumento para fortalecer e proteger seus territórios, a Mata Atlântica e seus modos de vida.

O diálogo com a sociedade também ganhou destaque no Seminário Atlântico Indígena, realizado em parceria com universidades e centros de pesquisa. Parte das atividades ocorreu na Terra Indígena Tekoa Mirim, em Praia Grande (SP), reunindo anciãos Guarani e acadêmicos em reflexões sobre território, espiritualidade e modos de vida, ampliando a compreensão sobre a relação dos povos indígenas com a Mata Atlântica e reforçando a visibilidade das territorialidades indígenas no litoral brasileiro.

Monitoramento, presença no território e conservação da Mata Atlântica 

Neste ciclo, foi realizada a primeira etapa do Programa de Formação de Agentes Ambientais na Terra Indígena Ka’aguy Mirim (Miracatu – SP). Representantes Guarani Mbya e Tupi Guarani de 20 aldeias de 15 Terras Indígenas do Vale do Ribeira e do Litoral do Paraná se reuniram para fortalecer estratégias de monitoramento territorial e ambiental. 

Uma das principais temáticas abordadas foi a importância das caminhadas no mato como forma tradicional guarani de conhecer e proteger o território. O uso de tecnologias para registro de informações audiovisuais e georreferenciadas, assim como a produção de mapas,  foi discutido como ferramenta complementar  às práticas de proteção territorial e ambiental.

Participante da formação marca pontos no GPS durante caminhada
Com mapas da Terra Indígena, participantes planejam locais estratégicos para novas caminhadas

A necessidade de proteger o território é reforçada por Juliana Kerexu Mirim Mariano, Coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa e Cacique da Aldeia Takuaty, Terra Indígena da Ilha da Cotinga, Paranaguá (PR). “Entendo a importância do apoio para o fortalecimento, o cuidado e a preservação da Mata Atlântica, um bioma essencial para o povo Guarani. Quando recebemos suporte para a estruturação das comunidades, como na construção de uma casa de reza, isso ajuda a fortalecer nossa espiritualidade, que não se desvencilha da natureza. Esse apoio, então, é muito importante para desenvolver projetos e ideias que estão em tantas aldeias e que ajudam a manter esses territórios seguros”.

Paralelamente, o projeto apoiou expedições de monitoramento em diferentes terras indígenas, como Peguaoty, Ka’aguy Mirim, Takuari, Amba Porã, Djaikoaty e Ka´aguy Hovy, no Vale do Ribeira-SP, Cerco Grande e Superagui, no litoral do Paraná. Também realizou a manutenção e a compra de barcos e motores, essenciais para apoiar as ações de monitoramento nas TIs localizadas em contextos insulares. 

O fortalecimento das práticas tradicionais foi igualmente central. Mutirões reformaram casas de reza (opy) em aldeias como Pakurity, na Ilha do Cardoso, em  Cananéia (SP)  e Pindoty, na Ilha da Cotinga em Paranaguá (PR). Esses espaços são essenciais para a vida espiritual e social guarani, onde se realizam rituais e se transmitem saberes relacionados ao território  e a Mata Atlântica. O projeto também apoiou rituais de nhemongarai, que reforçam a espiritualidade e a coesão comunitária.

Mutirão de construção da opy na aldeia Itaju, TI Ka’aguy Hovy
Mutirão de construção da Opy na aldeia Jejyty, TI Ka’aguy Hovy

Outra estratégia relevante foi  a consolidação de novas aldeias em áreas vulneráveis, como Tekoa Ingá Mirim (TI Guaviraty – SP) e Tekoa Indajé (TI Amba Porã – SP). A presença física das comunidades nesses locais tem contribuído para inibir invasões e atividades ilegais, como o manejo clandestino de eucalipto e a entrada de caçadores. Além disso, houve apoio emergencial ao plantio tradicional durante o Ara Pyau, com distribuição de sementes e ferramentas agrícolas, garantindo a continuidade das práticas agrícolas ancestrais.

Entrega de mudas na aldeia Guata Porã, TI Cerco Grande, litoral do Paraná
Entrega de mudas na aldeia Tupã Reko, Vale do Ribeira

Essas ações revelam um primeiro ano marcado pela organização política, pela produção de conhecimento indígena e pela construção de pontes com instituições e sociedade civil. Também mostram o fortalecimento de práticas que valorizam os saberes tradicionais ao mesmo tempo em que aprimoram o uso de tecnologias que contribuem para a proteção dos territórios. 

O resultado é um conjunto de estratégias que ampliam a autonomia dos Guarani na proteção da Mata Atlântica. Essas ações consolidam formas de monitoramento e gestão ambiental que articulam conhecimentos não indígenas às práticas próprias de organização, monitoramento e transmissão de conhecimentos tradicional.

Os avanços deste primeiro ciclo mostram a importância de iniciativas construídas a partir da escuta e do protagonismo indígena. Ao integrar saúde, proteção territorial, segurança alimentar e monitoramento ambiental, o projeto fortalece estratégias guarani e timbira de cuidado e gestão dos territórios. 

Essas estratégias contribuem para a autonomia das comunidades, a conservação da biodiversidade, a contenção do desmatamento e o enfrentamento às mudanças climáticas.  Assim, o bem viver das comunidades se afirma como parte essencial da proteção da vida, da memória e dos biomas que esses povos ajudam a conservar. 

O projeto “Território e Saúde: Olhares e Estratégias Guarani e Timbira” é realizado pelo CTI, em parceria com a Associação Wyty Catë das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins e a Comissão Guarani Yvyrupa, e conta com apoio do Fundo Amazônia/BNDES.