Povos indígenas fortalecem recuperação ambiental em intercâmbio

maio 25, 2026

Intercâmbio na Terra Indígena Kanela Memortumré reuniu povos de diferentes territórios para troca de saberes sobre recuperação de nascentes e vegetação nativa.

Por Tiago Kirixi Munduruku/CTI

Entre cantos tradicionais, viveiros de mudas, histórias dos mais velhos e caminhadas por áreas em recuperação ambiental, representantes dos povos Terena, Guarani Kaiowá, Xakriabá, Xavante, Krahô, Apinajé e Kanela Memortumré participaram, entre os dias 7 a 11 de maio, do Intercâmbio Temático sobre Recuperação de Nascentes e Vegetação Nativa, realizado na Terra Indígena Kanela Memortumré, na Aldeia Escalvado, no Maranhão.

A atividade reuniu agentes ambientais indígenas, lideranças, jovens e apoiadores do projeto “Cerrado em Pé: fortalecimento da gestão territorial e ambiental de terras indígenas e suas organizações”, promovendo um espaço de troca de experiências entre povos do Cerrado que enfrentam desafios semelhantes diante da degradação ambiental, escassez hidríca e ameaças aos territórios.

Mais do que uma agenda técnica, o intercâmbio se transformou em um encontro de escuta, aprendizado coletivo e fortalecimento cultural. Durante os dias de atividades, os participantes conheceram experiências conduzidas pelo povo Kanela na recuperação de áreas degradadas, na produção de mudas nativas, no manejo agroecológico e na proteção das águas.

Um encontro entre povos do Cerrado

Logo na chegada à Aldeia Escalvado, os participantes foram recebidos pelos agentes ambientais Kanela e acolhidos nas casas das famílias da comunidade, prática tradicional do povo anfitrião que fortaleceu a convivência e a troca cultural entre os diferentes povos presentes.

No primeiro grande encontro coletivo, realizado no viveiro de mudas da aldeia, cada povo se apresentou e compartilhou um pouco de sua realidade territorial. Ali, os participantes conheceram o processo de produção de mudas nativas e frutíferas, as técnicas utilizadas no viveiro e o papel político e ambiental que esse espaço possui dentro do território Kanela.

Para a agente ambiental Andiara, do povo Terena, do Mato Grosso do Sul, o encontro representou uma oportunidade de inspirar e fortalecer iniciativas que já vêm sendo construídas em diferentes territórios indígenas do Cerrado.

“Esse intercâmbio eu estou gostando muito de participar, porque aqui eu posso ver como os outros parentes estão fazendo suas ações, fazendo o plano de restauração dessas áreas de nascente. Se tiver um modelo que eles estão fazendo aqui, possa ajudar lá também no meu território, eu posso estar aprendendo esse modelo e tentar adaptá-lo lá”, afirmou.

Andiara destacou ainda que a recuperação ambiental está diretamente ligada à sobrevivência cultural dos povos indígenas.

“A gente conhecer a espiritualidade de outros povos também interfere diretamente nisso, de recuperar e preservar essas áreas para a nossa cultura, para a nossa subsistência, para que a nossa cultura sobreviva.”

Segundo ela, o Cerrado vive uma situação alarmante diante da degradação constante do bioma. “O Cerrado é a nossa sobrevivência. É a nossa força, a nossa essência.”

A recuperação das águas

Um dos momentos centrais do intercâmbio foi a visita à área de recuperação da nascente do principal córrego que abastece a Aldeia Escalvado. A atividade começou com cantos tradicionais do povo Kanela e relatos dos mais velhos sobre as transformações percebidas na paisagem ao longo das últimas décadas.

Os participantes puderam conhecer de perto as intervenções realizadas pelos agentes ambientais indígenas para recuperar a áera da nascente, que há cerca de 30 anos vem perdendo volume de água.

De acordo com os relatos compartilhados durante a atividade, o local que anteriormente chegava a quase dois metros de profundidade hoje possui pouco mais de cinquenta centímetros de água.

Para enfrentar o problema, foram construídas curvas de nível e bacias de contenção, entre a estrada e a área de recarga, além do plantio de espécies que ajudam a proteger o solo e manter a umidade da área. O trabalho exigiu intenso esforço físico dos agentes ambientais Kanela, que realizaram grande parte das ações de forma manual.

As atividades também abriram espaço para que participantes de outros territórios compartilhassem suas próprias experiências de recuperação ambiental. A agente ambiental Isanete Krahô relatou que a realidade em sua comunidade é semelhante e afirmou que pretende levar os aprendizados para seu povo.

“Eu estou aprendendo muito para levar para o meu povo e falar para eles que não pode acontecer isso na nossa aldeia. Aqui o pessoal está fazendo as coisas deles muito bem, e nós temos que fazer assim também”, disse.

Ela também destacou a preocupação com as futuras gerações. “Quando nossos netos e nossos filhos crescerem, nosso território precisa continuar em pé para eles. É bom ter essas coisas de volta, ter as coisas boas para nós.”

Durante a troca de experiências, participantes falaram sobre a necessidade de proteger as nascentes do fogo, evitar roças próximas às áreas de água e fortalecer práticas de manejo que contribuam para a regeneração do Cerrado.

O Cerrado como território de vida

As discussões ao longo do intercâmbio mostraram que, para os povos indígenas, a recuperação ambiental vai muito além de uma questão ecológica. Água, vegetação, sementes e animais fazem parte de um sistema profundamente conectado à cultura, à espiritualidade e à continuidade da vida nos territórios.

O professor e agente indígena Domingos Xakriabá, do norte de Minas Gerais, ressaltou que o Cerrado guarda conhecimentos fundamentais para os povos indígenas.

“O Cerrado é muito importante, porque ali estão todas as nossas medicinas tradicionais. Ali estão os frutos nativos. É uma fonte de riqueza para todos nós.”

Segundo ele, muitas das práticas vistas durante o intercâmbio poderão fortalecer ações já realizadas em seu território.

“A gente viu algumas práticas que vão agregar muito. Nós também tentamos recuperar áreas degradadas e preservar as nascentes.”

Domingos também destacou a relação entre os conhecimentos tradicionais e a educação escolar indígena.

“Como professor na minha aldeia, a gente ensina algumas técnicas repassadas pelos nossos mais velhos. E vendo outras práticas aqui, a gente consegue somar conhecimentos para ensinar na comunidade.”

Quintais produtivos e manejo tradicional

Outro momento importante da programação foi a visita aos quintais produtivos familiares da Aldeia Escalvado. Os participantes conheceram áreas manejadas por famílias Kanela onde são cultivadas espécies como açaí, cupuaçu, mandioca e outras plantas utilizadas tanto para alimentação, quanto para recuperação ambiental.

Além da produção de alimentos, o enriquecimento dos quintais cumpre um papel importante na proteção dos brejos e córregos da região, ajudando a conter o assoreamento e conservar a umidade do solo.

Durante as visitas, também houve discussões sobre o manejo sustentável do buriti, planta de grande importância cultural para os povos do Cerrado, utilizada em construções tradicionais, artesanato, festas e rituais tradicionais.

Em um dos quintais visitados, os participantes realizaram coletivamente o plantio de novas mudas de açaí, fortalecendo simbolicamente a união entre os povos do Cerrado. .

Produção agroecológica e autonomia alimentar

No último dia de atividades, os participantes visitaram um pomar de laranjas implantado a partir de uma demanda da própria comunidade Kanela.

O espaço foi pensado para fortalecer a realização da tradicional Festa da Laranja, celebrada em agosto pelo povo Kanela, evitando a dependência da compra de frutas fora do território.

Além das laranjeiras, a área conta com plantio consorciado de feijão, abóbora, café, entre outras, em um modelo agroecológico que busca diversificar a produção, melhorar o solo e garantir colheitas ao longo do desenvolvimento do pomar.

Durante a atividade, os participantes trocaram experiências sobre técnicas agrícolas, manejo tradicional e adaptações que vêm sendo feitas nos diferentes territórios diante das mudanças climáticas e das transformações ambientais.

“Nós não queremos deixar esse trabalho”

Para os agentes ambientais Kanela, sediar o intercâmbio também foi motivo de orgulho e fortalecimento coletivo. O agente ambiental Inaldo Kanela destacou a importância do trabalho desenvolvido pela comunidade e da troca entre os povos presentes.

“Nós trabalhamos com os recursos naturais, com as nascentes, com a fauna e a flora. É um trabalho muito importante para nós, e nós queremos aprender mais. Nós não queremos deixar o nosso trabalho, porque ele é muito importante para nós.”

Ele também celebrou a presença dos participantes vindos de diferentes regiões do Cerrado.

“Estou muito feliz com o pessoal que veio de fora para cá, até aqui no Maranhão. Estamos juntos aqui.”

Um intercâmbio que deixa sementes

Ao final dos dias de convivência, o sentimento compartilhado entre os participantes era de que o intercâmbio havia plantado muito mais do que mudas nas áreas visitadas.

Entre cantos, conversas e caminhadas coletivas, o encontro fortaleceu alianças entre povos indígenas do Cerrado que seguem defendendo suas águas, suas matas e seus modos de vida.

Cada experiência compartilhada revelou que recuperar uma nascente também significa recuperar memórias, fortalecer culturas e garantir futuro para as próximas gerações.

Enquanto os participantes se despediam da Aldeia Escalvado, permanecia viva a certeza de que as sementes plantadas ali seguirão caminhando por muitos outros territórios indígenas do Cerrado, carregadas nas mãos, na memória e no compromisso de cada povo que continua lutando para manter a terra, a água e o Cerrado em pé.