Formação de agentes ambientais Guarani une tecnologia e saberes tradicionais em ações de proteção territorial

maio 19, 2026

Com o apoio do Fundo Amazônia, CTI realiza primeira etapa da formação; atividade reuniu representantes de 15 Terras Indígenas para fortalecer estratégias de monitoramento.

Por Danielle Feltrin/CTI

A proteção da Mata Atlântica e dos territórios Guarani ganha um novo impulso com a realização da primeira etapa do Programa de Formação de Agentes Ambientais Guarani – Proteção Territorial e Ambiental na Mata Atlântica, pelo projeto Território e Saúde: olhares e estratégias Guarani e Timbira, apoiado pelo Fundo Amazônia (BNDES). No mês de abril, na Terra Indígena Peguaoty, em Sete Barras (SP), representantes Guarani Mbya e Tupi Guarani de 20 aldeias de 15 Terras Indígenas do Vale do Ribeira e do Litoral do Paraná se reuniram para fortalecer estratégias de monitoramento territorial e ambiental.

Durante o encontro, lideranças, mulheres, jovens e anciãos participaram de dinâmicas em grupo, trocaram experiências sobre as atividades de monitoramento já em curso em seus tekoa e realizaram atividades práticas com o uso de ferramentas de geoprocessamento, coleta e qualificação de dados, apresentaram em mapas áreas vulneráveis de seus territórios e realizaram o planejamento de expedições para a continuidade das ações de monitoramento. 

Também foram realizadas reflexões pelos Guarani sobre o conceito de proteção territorial a partir do Nhandereko (modo de ser Guarani), evidenciando como as atividades tradicionais estão intrinsecamente relacionadas ao cuidado e preservação ambiental. A valorização das casas de reza (opy), as dinâmicas de ocupação territorial e manejo ambiental foram temas abordados pelos mais velhos, que também trouxeram percepções sobre o clima, observando alterações no regime de chuvas e no ambiente, e como isso reforça a urgência de preservar a floresta e manter o Nhandereko fortalecido. 

A necessidade de proteger o território é reforçada por Luís Fernando Ferreira, liderança da Aldeia Peguoaty. Ele alerta para a pressão constante de invasores e para a necessidade de demarcação para proteger a fauna e flora. “Nossos xeramoĩ sempre protegeram essa mata, há muito tempo já existe essa preocupação com invasões e derrubadas da mata. O projeto do Fundo Amazônia chegou em um momento oportuno para ajudar a preservar nosso território, que guarda a floresta que está diretamente ligada à nossa espiritualidade. Não queremos que se repita aqui o que já aconteceu em outros lugares, precisamos proteger nossa casa.”

A preservação da floresta é indissociável do modo de vida guarani, uma conexão que se tornou evidente durante as expedições pelo território. Ao longo das caminhadas pela mata, os mais velhos compartilharam ensinamentos tradicionais com os mais jovens como, por exemplo,  a identificação de plantas medicinais. 

Para a professora Eliane Veríssimo, da Terra Indígena Cerco Grande (PR), a atividade representou um resgate de sua ancestralidade. “Os xeramoĩ (anciãos) nos ensinaram a identificar plantas, mostraram como preparar os remédios… Foi uma vivência incrível que vou levar para a vida”, relata. “Perdi minha avó muito cedo e acabei me desconectando desses conhecimentos. Aqui eu tive a oportunidade de recuperar parte dessa sabedoria, que é tão importante para nós, guarani. Agora posso compartilhar com meus filhos, para que eles transmitam aos filhos deles. A Mata Atlântica é valiosa para nós e precisa ser preservada.”

O encontro marcou o início de uma série de encontros  formativos previstos pelo projeto, que pretendem contribuir para potencializar as atividades de proteção territorial e ambiental que já são tradicionalmente realizadas pelos Guarani agregando conhecimentos e tecnologias não-indígenas, como o uso de GPS e drones, visando ampliar a capacidade de monitoramento e proteção dos territórios.