Encontro fortalece atuação de agentes ambientais indígenas no Vale do Javari

maio 11, 2026

Representantes de cinco povos discutiram vigilância territorial, manejo sustentável e uso de tecnologia na proteção da maior área com povos isolados do mundo.

Por Tiago Kirixi Munduruku/CTI

Entre os dias 20 a 24 de abril, representantes indígenas da Terra Indígena Vale do Javari participaram, em Letícia, na Colômbia, do Encontro dos Agentes Ambientais Indígenas. A atividade foi organizada pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI), com apoio da Fundação Rainforest Noruega (RFN), e reuniu 31 participantes de cinco povos do território localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.

Estiveram presentes 10 representantes do povo Marubo, sete Mayuruna (Matsés), sete Kanamari, cinco Matis e dois Kulina-Pano. O encontro também contou com a participação de sete mulheres, número superior ao registrado em atividades semelhantes realizadas anteriormente.

A programação teve início com debates sobre o papel dos agentes ambientais indígenas e atualizações sobre a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA).

Na sequência, os participantes apresentaram um panorama das principais ameaças enfrentadas em diferentes regiões do Vale do Javari. Entre os problemas relatados estiveram a presença de caçadores e pescadores ilegais, o avanço do desmatamento, requerimentos minerários e a atuação de grupos ligados ao narcotráfico.

Durante o encontro, o CTI também apresentou dados atualizados sobre pressões no entorno da Terra Indígena, incluindo áreas desmatadas, solicitações minerárias e informações sobre o mercado ilegal de carne de caça na região da tríplice fronteira.

A coordenadora da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), Mariazinha Baré, participou de dois dias da programação e defendeu maior integração do Vale do Javari aos movimentos indígenas estaduais e nacionais, como forma de reduzir o isolamento histórico da região.

Ela também informou os participantes sobre a tramitação do Projeto de Lei nº 2936/2022, que propõe regulamentar e reconhecer oficialmente a atuação dos agentes ambientais indígenas nas ações de gestão territorial e ambiental em Terras Indígenas.

Outro momento da programação foi a visita à maloca do povo Kamejeiya (Yukuna), onde os participantes foram recebidos pela liderança e autoridade médica tradicional William Yucuna Tanimuca. Durante a atividade, ele destacou a compreensão indígena de que natureza e ser humano são inseparáveis.

O encontro também deu destaque a experiências de manejo sustentável desenvolvidas dentro do Vale do Javari. Entre elas, o manejo de quelônios realizado pelos Marubo no rio Ituí, que já possibilitou a soltura de dezenas de milhares de filhotes de tartaruga-da-amazônia e tracajá.

Também foram apresentadas iniciativas de manejo de pirarucu conduzidas por Mayuruna (Matsés) e Kanamari no médio rio Javari e baixo rio Curuçá, além de projetos de meliponicultura desenvolvidos pelos Kulina-Pano no médio rio Curuçá. As ações combinam conservação ambiental, fortalecimento da segurança alimentar e geração de renda nas comunidades.

A Terra Indígena Vale do Javari abriga a maior concentração de povos indígenas isolados do mundo e enfrenta pressões recorrentes de invasores. Representantes da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari (FPEVJ/Funai) reforçaram que os agentes ambientais indígenas devem priorizar ações de monitoramento, vigilância e coleta de informações, evitando confrontos diretos.

No último dia do encontro, os participantes receberam treinamento para integrar conhecimentos tradicionais a ferramentas tecnológicas de fiscalização territorial. A atividade contou com parceria da Rainforest US, da Organización Regional de Pueblos Indígenas del Oriente (ORPIO) e do World Resources Institute (WRI), responsável pela plataforma Global Forest Watch.

A capacitação incluiu uso de drones, aparelhos de GPS e aplicativos capazes de registrar rotas, imagens e áudios georreferenciados para subsidiar denúncias de invasões e crimes ambientais. Segundo os organizadores, a tecnologia deve atuar como ferramenta complementar ao conhecimento tradicional dos povos indígenas na proteção da floresta.