Cerâmica Terena e saberes indígenas ganham força em formação do Iphan em Mato Grosso do Sul

abr 17, 2026

Entre memórias, desafios e resistência, encontro reuniu pesquisadores e ceramistas para fortalecer o protagonismo indígena na preservação cultural.

Por Tiago Kirixi Munduruku/CTI

Nos dias 26 e 27 de março, em Campo Grande (MS), vozes, memórias e saberes do povo Terena se encontraram em um espaço de escuta e construção coletiva. A formação promovida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com o Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e o Conselho do Povo Terena, reuniu pesquisadores indígenas e ceramistas em torno de um objetivo comum: fortalecer a preservação de seus modos de vida e garantir que suas histórias continuem sendo contadas pelas próprias comunidades.

Protagonismo indígena no centro do processo

Ao todo, 31 pessoas participaram do encontro, incluindo cerca de 15 pesquisadores indígenas. Mais do que uma atividade formativa, o momento foi também de afirmação: são os próprios povos que definem o que é importante preservar.

O Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), principal instrumento debatido, foi apresentado como uma ferramenta de ação. Diferente de pesquisas acadêmicas tradicionais, o inventário busca gerar impactos concretos, orientando políticas públicas de preservação com base no olhar de quem vive a cultura no dia a dia.

Durante a formação, a mensagem foi direta e carregada de sentido. A servidora do Iphan, Thaísa, destacou: “Se vocês não dizem que algo é importante, não começa nenhum processo” e reforçou o princípio que guiou o encontro: “nada sobre nós sem nós”. A fala sintetiza o protagonismo indígena como condição essencial para qualquer política de patrimônio.

Cerâmica como herança, sustento e identidade

A cerâmica Terena atravessou as discussões como um fio que conecta passado, presente e futuro. Mais do que objetos, as peças carregam histórias, afetos e resistência.

“A nossa bisavó já comercializava as peças. Ela saía vendendo de casa em casa, na cidade. Foi assim que começou”, relembrou a ceramista Arlene Júlio, trazendo à tona a força das gerações que vieram antes.

A ceramista Dina Sebastião também destacou o vínculo com a tradição: “A gente continua até hoje. É uma história muito forte pra mim, porque vem da nossa família”.

Entre falas e memórias, ficou evidente que a cerâmica é também sustento e persistência. “Não é fácil pra gente chegar até aqui. Nós três continuamos fazendo esse trabalho, essa herança que é nossa”, afirmou Arlene Júlio.

As lembranças do passado revelam trajetórias marcadas por esforço. A ceramista Dilma Polidório recordou: “A gente carregava as peças na cabeça, saía da aldeia pra pegar transporte e ir vender em Campo Grande.” Hoje, ainda que os desafios permaneçam, novas possibilidades surgem, como o uso de tecnologias e maior visibilidade em feiras, sinais de adaptação sem perder a essência.

Língua, cultura e resistência

A formação também abriu espaço para um tema sensível e urgente: a preservação das línguas indígenas. Ao abordar o Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), os participantes refletiram sobre os impactos históricos da colonização e o enfraquecimento das línguas maternas.

O uso predominante do português, inclusive dentro das famílias, foi apontado como um dos fatores que aceleram esse processo. Ainda assim, a língua permanece como um território de resistência, carregando identidades, histórias e formas próprias de ver o mundo.

Desafios entre tradição e mercado

Entre a tradição e as demandas do presente, os desafios são muitos. Questões ambientais, como a escassez de madeira e o desmatamento, impactam diretamente a produção da cerâmica. Ao mesmo tempo, a concorrência com produtos industrializados impõe novas pressões.

Diante desse cenário, surgem caminhos possíveis: valorização do modo tradicional, criação de selos de autenticidade e fortalecimento de políticas públicas. Para muitas ceramistas, o reconhecimento pode significar não apenas visibilidade, mas também dignidade e melhores condições de vida.

Caminhos para a salvaguarda

Os encaminhamentos apontam para um processo coletivo e cuidadoso. Mobilizações comunitárias, definição do que será considerado patrimônio e construção de metodologias próprias fazem parte dos próximos passos.

A aldeia Cachoeirinha foi destacada como um território fundamental para a prática cerâmica, onde matéria-prima e conhecimento caminham juntos. Ainda assim, adaptações têm sido necessárias, revelando que a cultura é viva e se transforma sem perder suas raízes.

Também foi reforçada a importância de decidir, de forma coletiva, o que pode ser compartilhado e o que deve permanecer restrito, respeitando os limites e os saberes das comunidades.

Um processo vivo, para as próximas gerações

O IRNC foi apresentado como o início de um caminho. Um processo que pode abrir portas para reconhecimento, políticas públicas e proteção dos saberes tradicionais, mas que, acima de tudo, depende das escolhas e da mobilização das próprias comunidades.

Ao final da formação, ficou a certeza de que preservar não é apenas olhar para o passado, mas garantir futuro. Um futuro em que mulheres como Arlene Júlio, Dina Sebastião e Dilma Polidório sigam moldando não só o barro, mas também suas histórias, identidades e resistências, mantendo vivo aquilo que atravessa gerações.