Cerâmica Terena inicia caminho para reconhecimento nacional com abertura do INRC em Miranda (MS)

fev 10, 2026

Comunidade da Aldeia Cachoeirinha celebra início do inventário federal como marco histórico na valorização do saber tradicional e do protagonismo das mulheres ceramistas.

A manhã de 31 de janeiro foi marcada por um sentimento de conquista na Aldeia Cachoeirinha, em Miranda (MS). No Centro Comunitário da comunidade, foi realizada a abertura oficial do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) dos modos de fazer da cerâmica Terena, etapa inicial para o reconhecimento federal como Patrimônio Cultural do Brasil.

O processo é resultado de uma articulação iniciada em 2023 entre o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), o Conselho do Povo Terena e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A abertura reuniu ceramistas, lideranças e representantes institucionais em um encontro que combinou acolhimento comunitário e debate sobre políticas públicas de patrimônio.

Protagonismo das mulheres ceramistas

A programação começou com um café da manhã coletivo e seguiu com uma mesa de apresentação. Estiveram presentes as ceramistas Arlene Sebastião, Dilma Poliodorio e Dina Sebastião; o cacique Vanderlei Felipe; Carolina Perini (CTI); Marivânia Albuquerque (Conselho de Mulheres de Miranda); Ederval Antônio (Caianás); Elço Albuquerque, conselheiro dos Agentes Ambientais Terena; e os representantes do Iphan/MS José Augusto Carvalho, João Paulo Pereira do Amaral e Rafael Saldanha.

Responsável pela abertura da mesa, Arlene Sebastião destacou a transmissão do conhecimento entre gerações. “Aprendi com minha avó desde os 10 anos e hoje continuo trabalhando”, afirmou. A ceramista ressaltou que a atividade é também fonte de sustento: “Eu sobrevivo com essas peças e sustentei minhas filhas”.

Ela também apontou dificuldades enfrentadas pelas produtoras. “Não é fácil oferecer nossas peças, mas seguimos lutando”, disse. Sobre os desafios atuais, enfatizou: “A dificuldade maior é a queima da cerâmica por falta de matéria-prima”. Arlene ainda reforçou o caráter coletivo da prática na aldeia. “Muitas mulheres da aldeia Cachoeirinha são ceramistas”, afirmou, acrescentando o desejo de continuidade: “Quero passar esse conhecimento para minhas filhas”.

Cerâmica, território e política pública

Durante o encontro, o vínculo entre cerâmica e território foi ressaltado por diferentes falas. Elço Albuquerque destacou a dimensão cultural e cotidiana da prática. “A cerâmica faz parte da nossa vida e da nossa casa”, afirmou. Ele também chamou atenção para o alcance do projeto: “Esse conhecimento precisa ser passado para as futuras gerações” e “esse projeto busca política pública para a cerâmica”. Segundo ele, “nossa cerâmica precisa ser valorizada no Brasil”.

Representando o Iphan/MS, José Augusto Carvalho contextualizou o significado institucional do inventário. “O Mato Grosso do Sul não tem bens culturais indígenas reconhecidos nacionalmente”, afirmou, acrescentando: “Queremos mudar isso”. Para ele, é necessário “olhar além do patrimônio colonial” e reconhecer as referências culturais indígenas vinculadas ao território.

Carvalho explicou que o inventário já está aprovado e em fase inicial de execução. Segundo ele, quando um bem cultural é inventariado, outras referências associadas também se tornam visíveis. “Os lugares de retirada da argila também são referências culturais”, exemplificou. Ele destacou ainda que os produtos da pesquisa serão definidos de forma participativa, cabendo à comunidade decidir quais materiais poderão ser divulgados, inclusive em ambiente digital.

Caminho para o reconhecimento federal

João Paulo Pereira do Amaral explicou que o modo de fazer da cerâmica Terena já possui reconhecimento estadual, mas que o processo em andamento busca o reconhecimento federal como Patrimônio Cultural do Brasil. Segundo ele, o primeiro passo é justamente o Inventário Nacional de Referências Culturais.

“O reconhecimento federal segue um procedimento específico, e o inventário é o início desse caminho”, afirmou. Ele ressaltou que a política de salvaguarda será construída em diálogo com a comunidade, considerando os riscos e desafios enfrentados pelas ceramistas. “O processo está apenas começando, mas tem tudo para dar certo”, avaliou.

Resultado de uma trajetória de luta

Carolina Perini, do CTI, destacou que a presença do Iphan no território é resultado de anos de articulação da comunidade. Segundo ela, a defesa do território é pauta central da atuação da organização e das lideranças locais. Carolina afirmou que o projeto da cerâmica representa uma conquista construída ao longo de uma trajetória marcada por desafios e mobilizações coletivas.

O encontro foi avaliado pelas lideranças como um marco histórico para a Aldeia Cachoeirinha. A abertura do INRC foi compreendida não apenas como um ato administrativo, mas como passo decisivo para o reconhecimento nacional da cerâmica Terena e para o fortalecimento do protagonismo das mulheres que mantêm vivo esse saber tradicional.

Com o início do inventário, a comunidade dá um passo formal rumo ao reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil, reafirmando a cerâmica como prática viva, ligada ao território, à memória e à identidade do povo Terena.