Fernando Ralfer/CTI
Fotos: Kamilla Crahjnoo Gavião e Milena Rimpô Canela
Durante quatro dias, mulheres indígenas compartilharam conhecimentos tradicionais, refletiram sobre os principais desafios relacionados à saúde em seus territórios e construíram propostas para fortalecer o cuidado, a proteção e o protagonismo feminino nas comunidades.
Entre os dias 24 e 27 de julho, o Centro Timbira de Ensino e Pesquisa Pënxwyj Hëmpejxà, em Carolina (MA), recebeu o Encontro Formativo em Saúde da Mulher Timbira – Gavião Pyhcop Catiji e Apãnjekrá-Canela. Reunindo mulheres dos povos Gavião e Apãnjekrá, a atividade foi construída como um espaço de escuta, diálogo e troca de conhecimentos, onde experiências, memórias e conhecimentos tradicionais deram origem a reflexões sobre saúde, território, cultura e bem viver.
Dando continuidade ao processo iniciado com o encontro realizado entre mulheres dos povos Krahô e Apinajé, em outubro de 2025, a programação valorizou a construção coletiva do conhecimento por meio de rodas de conversa, trabalhos em grupo e momentos de partilha entre diferentes gerações. Durante os quatro dias, as participantes discutiram temas como alimentação tradicional, medicina indígena, uso abusivo de álcool e processos de alcoolização, violência contra as mulheres, cuidado com crianças, jovens e idosos, fortalecimento cultural e participação feminina nos espaços de decisão.
A iniciativa integra o ciclo de Encontros Formativos do Programa de Educação em Saúde Timbira e surgiu a partir da demanda das próprias mulheres por um espaço seguro e acolhedor de diálogo sobre saúde e cuidado. A ação busca fortalecer os conhecimentos, práticas e especialistas da medicina Timbira e reforçar a perspectiva intercultural da atenção básica à saúde nos territórios Timbira.
O encontro também contou com a participação de representantes do Distrito Sanitário Especial Indígena Maranhão (DSEI-MA), que acompanharam as rodas de conversa e puderam ouvir diretamente das mulheres os principais desafios relacionados à atenção à saúde nos territórios.
“Para o DSEI Maranhão, participar dessa construção coletiva é de extrema importância. As mulheres estão muito à vontade para compartilhar suas experiências. Questões como a violência, o uso abusivo de álcool e os desafios da atenção à saúde nos territórios têm surgido com muita força. […] Ao ouvir diretamente essas mulheres, conseguimos fortalecer as ações voltadas à saúde indígena”, explica Mirleanes Guimarães, chefe da Divisão de Atenção à Saúde Indígena do DSEI-MA.
Transmissão de saberes e fortalecimento dos cuidados com a saúde
As primeiras conversas foram conduzidas pelas mulheres mais velhas dos povos Gavião e Apãnjekrá, que compartilharam conhecimentos tradicionais sobre o cuidado com o corpo, a alimentação e os ciclos da vida. Com base em suas experiências, as participantes refletiram sobre as transformações vividas pelas comunidades nas últimas décadas e os impactos dessas mudanças na saúde das mulheres e de seus povos.
Entre os temas abordados estiveram os resguardos tradicionais, os cuidados durante a menstruação, a gestação, o parto e o pós-parto, além do uso de plantas medicinais, da alimentação cultivada nas roças e da importância do descanso como parte do cuidado com o corpo. As anciãs lembraram que esses conhecimentos sempre estiveram associados ao cotidiano das comunidades e constituem uma forma própria de promover saúde e prevenir doenças.
Ao longo das conversas, as participantes também chamaram atenção para o aumento de doenças como diabetes e hipertensão, relacionando esse cenário às mudanças nos hábitos alimentares e ao consumo crescente de produtos industrializados. O fortalecimento das roças tradicionais, da medicina indígena e do consumo de alimentos produzidos nos territórios foi apontado como um caminho para recuperar práticas de cuidado transmitidas entre gerações e fortalecer a autonomia das comunidades.
“As plantas medicinais são muito importantes. Elas ajudam na prevenção das doenças e no cuidado com as mulheres e as crianças. Mas tudo isso depende de um território saudável”, afirma a professora Teprŷ’cwyj Gavião, da Terra Indígena (TI) Governador.
Ao falar sobre a relação entre território e saúde, Darlene Kenikoi Canela, da TI Porquinhos, reforça que a preservação do território também é condição essencial para a continuidade dos conhecimentos tradicionais. “Também precisamos da floresta preservada, porque é dela que tiramos a nossa medicina tradicional”.
Os diálogos reforçaram ainda que a saúde da mulher não pode ser compreendida apenas a partir do acesso aos serviços de saúde. Para as participantes, ela envolve igualmente o fortalecimento dos conhecimentos tradicionais, a valorização das parteiras, pajés e demais especialistas indígenas, o respeito aos tempos do corpo e a continuidade das práticas culturais que sustentam o bem viver dos povos Timbira. Essas reflexões também aparecem entre os principais encaminhamentos da Carta Final do encontro, que defende o fortalecimento da medicina Timbira, dos resguardos tradicionais e da transmissão desses conhecimentos às novas gerações.
Álcool, violência e proteção das mulheres estiveram entre os principais desafios debatidos
Ao reunir apenas mulheres, o encontro criou um ambiente de confiança para que experiências e situações vividas nas comunidades fossem compartilhados de forma aberta. As conversas abordaram temas como o uso abusivo de álcool, a violência contra as mulheres e os caminhos para fortalecer as redes de proteção nos territórios.
“Nas rodas de conversa, por estarmos apenas entre mulheres, todas ficaram mais à vontade para compartilhar seus sentimentos, relatar o que vivem nas comunidades e falar sobre as dificuldades enfrentadas no dia a dia. Muitas mulheres sofrem violência e nem sempre reconhecem que aquilo é violência”, pontua Teprŷ’cwyj Gavião, o que reforça a importância de ampliar o acesso à informação, fortalecer o acolhimento e garantir que mais mulheres conheçam seus direitos e os mecanismos de proteção disponíveis.
As discussões evidenciaram que o uso abusivo de álcool e as diferentes formas de violência afetam diretamente a saúde das mulheres indígenas e de suas comunidades. Entre as estratégias apontadas estão a ampliação dos espaços de diálogo entre diferentes gerações, o fortalecimento dos vínculos comunitários e da atuação das lideranças e a promoção de ações de educação, prevenção e acolhimento nos territórios.
“Esse encontro trouxe um aprendizado muito importante: precisamos olhar com mais atenção para as mulheres das nossas comunidades. Muitas sofrem caladas e acabam enfrentando a violência sozinhas. Precisamos conversar, acolher e buscar formas de ajudá-las antes que a violência chegue ao seu pior desfecho”, finaliza Teprŷ’cwyj Gavião.
Propostas para fortalecer a saúde e os direitos das mulheres indígenas
As reflexões construídas ao longo do encontro foram reunidas na Carta Final, elaborada coletivamente pelas participantes. O documento reúne propostas e recomendações voltadas ao fortalecimento da saúde das mulheres indígenas, à valorização dos conhecimentos tradicionais e à ampliação das políticas públicas de atenção à saúde nos territórios.
Entre as principais propostas estão o fortalecimento da medicina tradicional timbira, a valorização das parteiras, dos pajés e demais especialistas indígenas, a proteção dos resguardos tradicionais, o incentivo à produção de alimentos nas roças, a prevenção ao uso abusivo de álcool e o enfrentamento da violência contra as mulheres. A Carta também reivindica melhorias na infraestrutura dos serviços de saúde, na formação das equipes e no atendimento às comunidades indígenas.
Construída a partir das contribuições das mulheres dos povos Gavião e Apãnjekrá, o documento reafirma que o cuidado com a saúde está diretamente relacionado à proteção dos territórios, à preservação da cultura e ao fortalecimento da autonomia dos povos indígenas. Mais do que registrar os debates realizados durante o encontro, o documento expressa um compromisso coletivo com a continuidade das ações e com a incidência junto aos órgãos responsáveis pela garantia dos direitos indígenas.
Cultura e bem viver marcam o encerramento do encontro
O último dia do encontro foi marcado por momentos de celebração e fortalecimento dos laços entre os povos Gavião e Apãnjekrá. Cantorias, apresentações culturais, a tradicional corrida de tora e o preparo coletivo do paparuto (ou berubu), comida típica dos Timbira, encerraram a programação, reafirmando que as práticas culturais também fazem parte do cuidado, da transmissão de conhecimentos e do fortalecimento da identidade dos povos.
“A pintura, os cantos, as festas e a corrida de tora também são saúde. A corrida de tora é um exercício para o corpo. Antigamente corríamos todos os dias durante as festas. Ela ajuda a manter o corpo forte e saudável. Quando cantamos, ficamos alegres, não ficamos tristes. Tudo isso fortalece a nossa saúde”, enfatiza Darlene Canela, lembrando que as práticas culturais são essenciais para a saúde dos Timbira.
“Esse encontro abriu um novo olhar para muitas mulheres. Agora precisamos levar esse aprendizado para as nossas comunidades e olhar com mais atenção para as mulheres que precisam de apoio”, afirma Teprŷ’cwyj Gavião.
Ao reunir mulheres de diferentes gerações em um espaço de escuta, diálogo e construção coletiva, o encontro reafirmou que, para os povos Timbira, cuidar da saúde é também fortalecer a cultura, proteger os territórios e garantir que os conhecimentos tradicionais continuem sendo transmitidos entre as gerações.
O Encontro Formativo em Saúde da Mulher Timbira das mulheres Gavião Pyhcop Catiji e Apãnjekrá-Canela é uma iniciativa do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e da Associação Wyty Catë das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins, no âmbito do projeto “Território e Saúde: Olhares e Estratégias Guarani e Timbira”, com apoio do Fundo Amazônia/BNDES.
















