Índios isolados entram em pauta em simpósio sobre cartografia social

Por Maria Emília Coelho e Helena Ladeira

O Instituto Nova Cartografia Social (INCS) promoveu, entre os dias 11 e 13 de maio, o Simpósio “Conhecimentos Internacionais e Territórios nas Regiões de Fronteira da Pan-Amazônia”. O evento aconteceu em Tabatinga, município do Amazonas, na fronteira com o Peru e a Colômbia, através de uma parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a Universidade Nacional da Colômbia (Unal) e a Fundação Ford.

O antropólogo explicou no mapa como essa política vem provocando a migração de povos isolados do Peru para o Brasil. “Os isolados que chegaram aqui no Brasil em 2007 fugiram dessa doideira, fugiram dos madeireiros que invadiram a Reserva Territorial Murunahua e o Parque Nacional Alto Purus, no território do Peru”. 

“O calendário indígena de ocupação dessas cabeceiras enlouqueceu, Nessas florestas fronteiriças ninguém sabe mais quem vai encontrar quem e como. Isso é perigoso. Quando começou essa pressão dos madeireiros do lado peruano, a gente
viu que proteção não faz só com vigilância, mas com conscientização e participação da população
”, concluiu Meirelles durante o evento em Tabatinga. 

Terri e Meirelles durante a apresentação no Simpósio Internacional

Fonte da Foto: Maria Emília Coelho

Durante suas apresentações no seminário internacional, Terri e Meirelles criticaram a política do governo peruano nos últimos anos, que ao conceder extensas áreas da Amazônia para a exploração sem controle de empresas madeireiras e petroleiras. “Aconteceu uma doideira no inicio do século XXI. De 2002 a 2008, com a crise do capitalismo internacional, o Peru pirou! Com essa política neoliberal dos presidentes peruanos, madeireiros ilegais começaram a invadir reservas territoriais, unidades de conservação e, inclusive terras indígenas do lado brasileiro”, afirmou Terri agitando os ânimos dos presentes no seminário. 

Para Meirelles, o maior preconceito contra os isolados está justamente nas populações que vivem mais próximas deles. “Como vamos proteger os isolados se há um entorno quase em guerra com os isolados? Então, decidimos fazer as oficinas como uma primeira tentativa de apaziguar o espírito do pessoal, de amansar todo mundo, porque os kaxinawa também são brabos, os ashaninka também são brabos”, explica o sertanista que recentemente foi contratado pelo Governo do Acre: “As oficinas produziram informações riquíssimas sobre a movimentação desses povos isolados no estado. Com os frutos dessa consulta vamos tentar demarcar mais uma terra para esses povos”.

“Nas oficinas a gente falou sobre o que acontece no entorno dos índios isolados, sobre as ameaças vindas do outro lado da fronteira, no Peru. Mostramos fotos, mapas e conversamos muito. Em troca, eles nos deram um mapa único sobre os isolados no Acre”, disse Terri. O mapa possui 153 referências sobre a presença de índios em isolamento na região, 48 casos de saques feitos pelos isolados em comunidades de brancos e aldeias indígenas do entorno, 30 casos de avistamentos, 44 casos de vestígios materiais da existência desses povos (como rastros, acampamentos, flechas, e etc.), e também 36 registros de confrontos armados com casos de mortes comprovadas.

Eles apresentaram um mapa construído a partir das informações coletadas nas diversas oficinas realizadas junto aos índios contatados e ribeirinhos que habitam o estado do Acre. O objetivo das oficinas, promovidas pela FUNAI em parceria com a organização Comissão Pró- Índio do Acre (CPI-Acre) foi apresentar e levantar informações a respeito dos povos indígenas em isolamento voluntário que habitam áreas vizinhas ao território dos índios contatados.

No segundo dia, a mesa-redonda “Mapeamento Social de Índios Isolados na Fronteira Brasil – Peru” teve destaque. O sertanista José Carlos Meirelles, que comandou por 20 anos a Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira/FUNAI, na fronteira do estado do Acre com o Peru, foi um dos expositores desta mesa, junto com o antropólogo Terri Vale de Aquino, da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da FUNAI.

O simpósio reuniu pesquisadores de instituições de ensino e pesquisa de diferentes países da Pan-Amazônia, além de representantes de organizações da sociedade civil e dos movimentos sociais e indígenas. Nos três dias de apresentação e debate os diferentes temas e aspectos convergiram à principal discussão proposta pelo evento: a cartografia como um novo instrumento para o fortalecimento dos movimentos sociais na Amazônia.